segunda-feira, 14 de agosto de 2017


BIBLIOGRAFIA ARQUEOLÓGICA PORTUGUESA_ o contributo de Eduardo Pires de Oliveira



Li ontem com atenção e especial interesse o artigo do Público sobre o historiador bracarense EDUARDO PIRES DE OLIVEIRA, ainda que na versão "on line", muito partilhada entre colegas e amigos. Julgo que nunca me terei cruzado pessoalmente com o Eduardo mas trocámos alguma correspondência no início dos anos 80 do século passado, uma vez que como Director do Departamento de Arqueologia acolhi e dei andamento à sugestão (julgo que terá partido do próprio Professor Jorge Alarcão) de edição pelo IPPC, do trabalho de compilação da bibliografia arqueológica portuguesa que EPO vinha preparando há algum tempo. Para as actuais gerações de arqueólogos, já formados na "era internet", será difícil compreender o verdadeiro alcance prático de um repositório informativo desta natureza... Pessoalmente e apesar de "suspeito", sempre considerei o conjunto dos três volumes bibliográficos então editados, como um dos mais importantes instrumentos de trabalho ao serviço da arqueologia preventiva e de investigação nas duas últimas décadas do século passado [Bibliografia Arqueológica Portuguesa (1935-1969), IPPC 1984; BAP (1970-1979), IPPC 1985; BAP (Séc.XVI-1934), IPPAR,1993]. Não me espantou pois que, o artigo do Público tenha dado o devido destaque a esta obra, ainda que amputando a referencia aos dois volumes posteriormente também publicados por EPO:

"Antes de entrar no doutoramento, Eduardo Pires de Oliveira já tinha mais de 150 títulos editados, entre livros de divulgação e defesa do património, e artigos publicados em revistas científicas e actas de congressos. As primeiras obras da sua bibliografia não podiam ser mais relevantes. Em 1982, edita Braga: Evolução da Estrutura Urbana, juntamente com os arquitectos João Lopes e Eduardo Souto Moura, futuro prémio Pritzker. Na mesma altura, estava a trabalhar na Bibliografia Arqueológica Portuguesa, que acabaria por ser editada em 1984 pelo então Instituto Português do Património Cultural. Entretanto, acrescentou-lhes mais 70."

Não recordo os exactos contornos que terão estado na origem deste projecto do EPO. Ainda que o artigo do Público refira uma sua precoce passagem pelas escavações de Conimbriga, ainda como estudante, a ligação de EPO à Arqueologia passou essencialmente pelo projecto de salvamento de BRACARA AUGUSTA e pelo seu enquadramento profissional ocasional na Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho a partir de 1977. Nos meus textos memorialistas sobre as transformações da Arqueologia portuguesa no último quartel do Século XX, que vou divulgando neste blog, tenho repetidas vezes defendido a "tese" de que a Universidade de Braga e a respectiva unidade de Arqueologia, foram uma espécie de epicentro para onde convergiram a partir de meados dos anos 70, as várias "forças reformadoras" da arqueologia portuguesa, finalmente libertadas pelo 25 de Abril... Arqueólogos estrangeirados (como o Francisco Alves ou a Manuela Delgado), professores e arqueólogos da escola de Coimbra (como Jorge Alarcão ou Adília Alarcão), alunos da Universidade do Porto (como a Susana Correia...), arqueólogos da "geração do Tejo" (como o Francisco Sande Lemos, a Manuela Martins e o próprio António Martinho Baptista), todos, de um ou de outro modo aparecem ligados a Braga no final dos anos 70. Neste "caldo" bracarense, em que pela primeira vez a Arqueologia surgia entre nós como uma oportunidade profissional, puseram-se em prática novas metodologias de campo, desenvolveram-se novos conceitos teóricos e nasceram novos projectos que, rapidamente, ultrapassaram as muralhas da velha cidade romana. Quando em 1980 Francisco Alves "negociou" com Vasco Pulido Valente a sua "transferência" para o lugar de director do MNA e a reorganização do sector de Arqueologia da SEC, a experiência do Campo Arqueológico de Braga, serviria de modelo e de incubadora para os novos Serviços Regionais de Arqueologia, também decalcados da experiência francesa de Francisco Alves. O que nem sempre se refere, é que por trás de todo este movimento especificamente arqueológico, estava um outro movimento de cariz social, de defesa do património e da memória histórica, organizada em torno de uma local Associação de Defesa do Património, a "ASPA", (actualmente a celebrar o seu 40º aniversário), e onde desde a primeira hora militavam, num ambiente polítio e económico especialmente hostil, figuras como Henrique Barreto Nunes (https://henriquebn.wordpress.com/biografia/), director da Biblioteca Pública de Braga durante décadas ou o próprio Eduardo Pires de Oliveira.

Terá sido no contexto da colaboração de EPO na organização da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, em cujo âmbito se estrutura também a partir de 1980, o Serviço Regional de Arqueologia do Norte (ambos os serviços partilhando meios humanos e logísticos sob a direcção de Francisco Sande Lemos), que terá surgido a necessidade de compilação da bibliografia arqueológica. Como base inicial de trabalho, EPO socorre-se de duas brochuras editadas em 1970 e 1973 pela Junta da Educação Nacional e organizadas por Maria Teresa Pinto Mendes (bibliotecária da Universidade de Coimbra): a primeira por ocasião do II Congresso Nacional de Arqueologia realizado em Setembro de 1970 em Coimbra, abrangendo a década de 60 e a segunda em 1973, sobre a década de 50. Mas aquilo que parecia inicialmente uma simples reedição, rapidamente evolui para obra nova, face aos novos dados coligidos ou corrigidos, ao alargamento do âmbito cronológico (1935-1969) e sobretudo, aos novos índices, temáticos ou toponímicos, acrescentados no volume que o autor dedicaria a Jorge Alarcão.


O 2º volume da Bibliografia Arqueológica Portuguesa, organizado por Maria Teresa Pinto Mendes e editado pela Junta da Educação Nacional e cuja revisão esteve na origem dos volumes organizados por Eduardo Pires (1984,1985 e 1993)

Logo de seguida, tirando partido de muita informação coligida para a obra inicial, Eduardo Pires de Oliveira propor-nos-ia  a edição de um segundo volume, este inteiramente inédito e de sua lavra, dedicado à década de 70, fechando assim o ciclo da bibliografia arqueológica pré-IPPC. Este segundo volume seria editado pelo Departamento de Arqueologia em 1985 e EPO dedica-o a Henrique Barreto Nunes, um dos fundadores da ASPA. Alguns anos depois (1993) já após a extinção do IPPC e num período em que o respectivo Departamento de Arqueologia era dirigido por Fernando Real, este ciclo bibliográfico seria encerrado com a publicação do repositório anterior a 1935, tendo como limite de antiguidade o nascimento da própria imprensa, o século XVI. O autor dedica este 3º e último volume bibliográfico a dois colegas contemporâneos, Manuel Real, então Director da Biblioteca Municipal do Porto e  Maria La Salete da Ponte,à época arqueóloga do Museu de Conimbriga. Nos agradecimentos, entre outros, cita os responsáveis do Departamento de Arqueologia que facilitaram os meios para o conjunto das edições, incluindo o Fernando Real, a Teresa Marques e eu próprio, o que me sensibilizou especialmente. Nela é feita também uma menção especial e bem merecida a um funcionário administrativo do Departamento de Arqueologia, o João Lourenço, ("pelo cuidado posto na árdua tarefa de passar para letra de imprensa as minhas fichas de trabalho") um colaborador que muito jovem e quase por acaso iniciou o seu trabalho no DA do IPPC, no âmbito de um programa de OTL (ocupação de tempos livres?). Desde então nunca mais o largámos, tal era o rigor e paixão com que realizava todas as tarefas, mesmo as mais fastidiosas, como a dactilografia ou a preparação das nossas próprias edições ("Informação Arqueológica", "Trabalhos de Arqueologia", etc...) e que só abandonaria  o Departamento de Arqueologia quando, finalmente licenciado, procurou noutro Ministério a promoção que a Cultura não lhe podia dar.












sábado, 12 de agosto de 2017


O Engenheiro António Guterres e a Arqueologia



A recente visita (privada e em contexto de férias familiares) do Secretário Geral da ONU  a um sítio arqueológico alentejano (Povoado dos Perdigões, Reguengos de Monsaraz) _ não é propriamente, notícia. Mas justifica-se e compreende-se que o António Carlos Valera, o coordenador do projecto ali em curso vai para 20 anos  ver aqui , registe o facto com evidente satisfação num dos vários blogues que mantem regularmente e onde vamos sabendo as últimas novidades das sucessivas campanhas arqueológicas. ver aqui o texto em causa e a reportagem fotográfica.

E a personalidade em causa, não é de facto um visitante qualquer, até sob a perspectiva da  própria Arqueologia. Com efeito, se bem se recordam, foi o XIII Governo Constitucional  presidido por António Guterres que, numa das suas primeiras resoluções após a tomada de posse em Outubro de 1995, tomou a corajosa e inédita decisão (mesmo a nível internacional) de suspender as obras de uma grande barragem (Côa), já em avançado estado de construção, o que acabaria por ser decisivo para o futuro da Arte Rupestre do Vale do Côa, hoje classificada como Património da Humanidade. Seria também esse mesmo Governo que instituiria ainda nesse mesmo ano de 95, no âmbito do Ministério da Cultura, dirigido por Manuel Maria Carrilho, uma Comissão Instaladora com vista à criação de um Instituto Português de Arqueologia, instituição que apesar da sua efemeridade (seria extinta uma década depois) revolucionaria a actividade arqueológica em Portugal na mudança do século. Tive oportunidade de testemunhar directamente o ambiente de verdadeira mudança que então se vivia no Palácio da Ajuda, uma vez que por sugestão do Vitor Oliveira Jorge integrei durante alguns meses essa Comissão Instaladora, pela qual passava também a gestão do escaldante "dossier Côa". Mas seria alguns meses depois, a partir de Maio de 1996, já responsável pela arqueologia do Alqueva, que me aperceberia melhor das nova atitude face ao património, por parte dos gestores das grandes obras públicas. A proverbial capacidade de trabalho de Guterres não seria suficiente para que ele tivesse qualquer interferência directa no dossier "Arqueológico" do Alqueva mas a inequívoca e corajosa orientação política que imprimira à resolução do caso do Côa, terá sido determinante para a abertura e total cooperação que senti da parte da administração da EDIA, nomeadamente da parte do meu chefe directo, o Joaquim Marques Ferreira e que permitiu pôr em marcha no Guadiana um projecto considerado como exemplar.

Aliás, seria já no âmbito dos trabalhos arqueológicos de campo no Alqueva que viria a tomar conhecimento de uma pequena história, que não resisti a transmitir ao António Valera quando este partilhou connosco as imagens da visita do Secretário Geral da ONU, às suas escavações dos Perdigões. Julgo que em 1997 ou 1998, houve uma deslocação do então primeiro ministro António Guterres a Mourão, mais propriamente a um sítio chamado Ferrarias, onde chegou a estar prevista a instalação de uma fábrica de papel que deveria ter substituído a velha unidade fabril junto à Praça da Carraça, entretanto desmantelada por causa da Barragem. Ali perto das Ferrarias, o Carlos Tavares da Silva e a Joaquina Soares, escavavam o Povoado Calcolítico do Porto das Carretas, um sítio paradigmático da Pré-história recente do Guadiana (descoberto por eles próprios nos anos 80). Como se sabe, CTS e JS, enquanto arqueólogos contratados pelo antigo Gabinete da Área de Sines, tinham sido percursores em Portugal da Arqueologia em contexto de grandes obras públicas, tendo desenvolvido um trabalho de reconhecido mérito científico na costa alentejana nos anos 70 e 80 do século passado. O que é pouco conhecido, segundo me confessaram então aqueles arqueólogos, é o facto de António Guterres enquanto técnico do Gabinete da Área de Sines entre 1973 e 1974, graças à sua vasta cultura e conhecimento directo de muitos sítios arqueológicos, ter tido um papel decisivo para a excepcional amplitude que os trabalhos de arqueologia viriam a assumir no âmbito do projecto de Sines. Este facto ganha entretanto especial relevância se lembrarmos que a primeira legislação sobre avaliação e minimização de impactes ambientais apenas surgiu em Portugal em meados dos anos 80 e que a imputação dos encargos com a Arqueologia às próprias obras só viria a concretizar-se no final dos anos 90... E isso só aconteceria com o IPA, no âmbito do XIII Governo Constitucional, presidido por António Guterres.





sexta-feira, 11 de agosto de 2017

ALMENDRES e outros patrimónios da Tourega e Guadalupe. Prestar contas...



Para os que me conhecem nem seria necessário confessar... Com efeito uma das principais motivações que me levou a aceitar o convite para integrar uma lista candidata à União de Freguesias da Tourega e de Guadalupe (2013), partia da vontade de cooperar com o meu saber e experiência, na valorização daquele que penso ser o maior recurso deste território: o património cultural. Procurei, no entanto, não partir de uma posição paternalista ou sobranceira, por duas razões principais: por um lado não é possível gerir o património cultural, particularmente em áreas rurais, sem conseguir a cumplicidade da população local mesmo em situações demográficas adversas; por outro, conhecia bem a situação de quase absoluta indigência financeira da Câmara Municipal (para já não falar da situação dos serviços da tutela do património), o que limitaria qualquer veleidade de resolver de um dia para o outro problemas que se arrastam há décadas. 

Com o aproximar do fim do mandato, está na hora de fazer balanços e prestar contas. Assim, por minha conta e risco, sem demagogias, restrições políticas ou preconceitos de qualquer tipo, aqui fica o meu ponto de vista sobre aquilo que, nesta matéria, eram as nossas preocupações há quatro anos e aquilo que de facto foi possível concretizar...

Apesar da riqueza patrimonial-arqueológica da união de freguesias, com mais de uma dezena de imóveis classificados (monumentos nacionais e imóveis de interesse público), a nossa atenção estava concentrada em três situações principais, nomeadamente:

1.  a salvaguarda e a gestão das visitas turísticas do Cromeleque dos Almendres;
2.  a consolidação estrutural e reabilitação da Anta Grande do Zambujeiro (um dos maiores e mais importantes dolmens da Península Ibérica);
3. a reabilitação do conjunto patrimonial da Tourega, (ruínas romanas, ruínas paleo-cristãs e igreja);

No que respeita ao primeiro objectivo, talvez o mais importante face à importância turística crescente dos Almendres, infelizmente os avanços foram praticamente nulos, ainda que no horizonte se perfilem algumas perspectivas positivas. A meio do mandato, a Junta com o apoio da Assembleia de Freguesia, jogou uma cartada forte propondo aos proprietários um acordo ou contrato que criasse as condições para que a Junta pudesse assumir juridicamente a responsabilidade da gestão do sítio, mas as condições propostas por aqueles, eram eticamente inaceitáveis, pelo que tudo ficou na mesma. A Junta, sem qualquer obrigação para tal, limitou-se a proceder durante estes anos a periódicas acções de limpeza na envolvente do Cromeleque e a Câmara Municipal, sempre que os acessos se tornavam mais complicados, deslocava uma máquina para nivelar o estradão entre Guadalupe e o monumento. A ideia de se criar um passadiço para visita ao Menir dos Almendres (cujo caminho está hoje quase impraticável...) foi rapidamente abandonada não só face aos custos que implicaria mas sobretudo pela indefinição quanto às questões "fundiárias" em causa. Falta saber qual será a entidade civilmente responsável por qualquer acidente que venha a acontecer naquele percurso em tão mau estado... Recentemente, e num acto que, na falta de meios jurisdicionais para intervir mais activamente, poderíamos considerar "simbólico", os serviços municipais, instalaram nova corrente e novo sinal de "trânsito proibido" no início do acesso pedonal ao Cromeleque...

Entretanto, por proposta da União de Freguesias, está a decorrer um concurso para selecção de interessados na instalação e exploração de um Centro de Informação Turística na aldeia de Guadalupe, equipamento que deverá potenciar localmente a mais valia turística crescente do Cromeleque dos Almendres. A Câmara cederá o terreno, em zona de passagem obrigatória para o Cromeleque, ficando a cargo do adjudicatário seleccionado, a concepção, instalação e respectiva exploração, o que exigirá aos poyenciais interessados, meios e capacidades consideráveis.

Para além das intervenções regulares de nivelamento do estradão de acesso ao Cromeleque, os serviços da Câmara Municipal de Évora procederam recentemente à reposição da corrente e do sinal de trânsito proibido no troço final do percurso de visita. Esperemos que dure mais do que o anterior...
Onde praticamente nada se avançou  e em contrapartida tudo se agravou nestes anos, foi na situação da Anta Grande do Zambujeiro. O problema de base é igual aos Almendres (a localização em propriedade privada que limita a capacidade de intervenção financeira por parte das entidades de tutela ou da própria autarquia), situação que se complica pela circunstância de estarem há muito identificadas necessidades de intervenção estrutural que colocam em risco a sobrevivência do próprio monumento. Apesar da Lei de bases do património cultural cometer aos proprietários a responsabilidade da conservação, no caso dos bens arqueológicos a imputação dessas responsabilidades não parece reunir o consenso dos entendidos...por razões compreensíveis. O que faz com que, cada dia que passa a situação seja cada vez mais grave, uma situação que era já periclitante em 2006, data do último diagnóstico produzido pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Como será de calcular, neste capítulo a Junta de Freguesia pouco mais poderia fazer para além de alertar as "entidades competentes" para a gravidade da situação, o que não deixou de fazer sempre que teve oportunidade para tal.

A situação da Anta Grande do Zambujeiro, abordada em recente colóquio na Assembleia da República. (http://pedrastalhas.blogspot.pt/2017/07/patrimonio-cultural-politicas-publicas.html)
- Se no caso dos Almendres e do Zambujeiro, as questões de jurisdição, representam ainda assim uma justificação aceitável para o impasse a que se chegou, já no caso da Tourega, outras explicações terão de ser encontradas para justificar que, apesar de alguns passos significativos, não se tenha avançado ainda mais. Com efeito o conjunto de iniciativas que a Junta de Freguesia promoveu poderia ter tido outro alcance se estas tivessem sido secundadas pelo Município, integrando as nossas propostas no programa AGER, programa que praticamente não passou do papel face às conhecidas dificuldades financeiras da Câmara no mandato que agora termina. Ainda assim foi possível editar um texto inédito sobre a Tourega, escrito no século XVIII, proceder a limpezas periódicas das ruínas romanas, e finalmente promover intervenções urgentes de conservação do património integrado da Igreja da Tourega, nomeadamente no que respeita às respectivas imagens religiosas (provisoriamente guardadas em Valverde) e em particular no importante retábulo, recentemente muito valorizado pelos estudos do Professor Vítor Serrão, figura que nos apoiou e acompanhou neste projecto. O envolvimento da população não foi descurado, até porque sem a respectiva participação, nada disto terá significado. E assim, a habitual missa de finados, único acto litúrgico que nos últimos anos acontece na Tourega, em 2016 seria substituída simbolicamente por uma missa de todos-os-santos, a que se seguiria um inédito concerto de música da escola de Sé de Évora pelo Coro Polifónico Eborae Musica. A sensibilização dos habitantes da Tourega e de Guadalupe para a importância deste antigo núcleo rural, seria ainda reforçada por uma concorrida visita ao Museu Nacional de Arqueologia, para observação da célebre "lápide da Tourega" no contexto da exposição "Lusitânia Romana". Dessa visita sairia ainda a proposta de visita complementar a Mérida, onde aquela lápide também estivera exposta, visita entretanto também organizada pela Junta e excepcionalmente concorrida. A organização de visitas da população, nomeadamente um passeio entre a Mitra e a Tourega nas Jornadas Europeias do Património em 2015, (http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/09/jornadas-europeias-do-patrimonio-em.html),  bem como a montagem de uma exposição na Igreja do Salvador, em Évora, sobre o "património da Tourega", seriam outras das iniciativas promovidas pela União de Freguesias.



Painel da exposição promovida pela Junta de Freguesia e organizada pela Direção Regional de Cultura do Alentejo na Igreja do Salvador, em Évora, e na qual estiveram expostas as imagens religiosas objecto de ações de conservação por parte de pessoal da DRCA- http://pedrastalhas.blogspot.pt/2016/12/tourega-patrimonio-em-meio-rural.html

A continuação do projecto da Tourega, recuperando, integrando e valorizando turisticamente este notável conjunto patrimonial, deverá ser um objectivo prioritário de um próximo mandato da Junta de Freguesia, até porque como referimos, neste caso não há desculpas de falta de jurisdição para actuar. Mas, nesta como em tantas outras situações, o apoio técnico e financeiro da Câmara, será essencial para concretização dos objectivos há muito identificados, nomeadamente:

- recuperação arquitectónica da Igreja Matriz e reintegração do seu património móvel;
- conservação, restauro e interpretação in situ das ruínas da Villa Romana da Tourega;
- estudo, consolidação e interpretação in situ das ruínas da Ermida de Sta Comba e da Fonte Santa;
- melhoria das condições da “morada” anexa à igreja, favorecendo a continuidade da sua habitabilidade, como condição fundamental de sustentabilidade do sítio;
- programa de arquitetura paisagista e valorização cultural, para o conjunto patrimonial da Tourega, prevendo áreas de estacionamento e de lazer; percursos de acesso às diversas ruínas e ao plano de água; núcleo interpretativo na Igreja;



quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Documentos sobre a Delegação de Lisboa do DAI (1971-1999)


Os "recortes de jornais" (em tempos, a base de qualquer serviço de informação e documentação...) são como as cerejas, no que respeita a sugestões temáticas...Não terá sido por causa da efeméride do 10º aniversário da delegação lisboeta do DAI_ o Instituto Arqueológico Alemão"_ que o Gonçalo Pereira Rosa me terá enviado mais este recorte. Com efeito o título a toda a largura da página do Diário Popular de 17 de Dezembro de 1981 remete para a descoberta e escavação de emergência, como então dizíamos, da Necrópole das Casas no Redondo (e não dos Casos...gralha do jornal). Tratava-se de um importante sítio identificado por arqueólogos amadores locais e que concentrava materiais associados a necrópoles de incineração da Idade do Ferro mas também de época romana. A importância dos materiais chamou naturalmente a atenção de Caetano Melo Beirão, então Director do recém criado Serviço Regional de Arqueologia do Sul, com sede em Évora que ali promoveu escavações com o apoio dos assistentes da Universidade de Évora, Jorge Pinho Monteiro e José Olívio Caeiro.  Por várias razões os trabalhos acabariam por decorrer com muitos percalços e os materiais, julgo que na sua maior parte ainda por publicar, só dariam entrada no Museu de Évora alguns anos depois, estando parcialmente expostos desde 2013 na Galeria de Arqueologia do Museu de Évora. Mas não foi a Necrópole das Casas a motivação deste "post". De facto, acabou por prender a minha atenção, a referencia ao 10º aniversário da delegação de Lisboa do Instituto Arqueológico Alemão, até porque conservo entre os meus papéis uma rara brochura editada em 1991, no vigésimo aniversário desta prestigiada instituição que desgraçadamente não chegaria aos 30 anos, uma vez que seria encerrada em 1999. Felizmente, parte do respectivo acervo documental (nomeadamente os Arquivos do Casal Leisner e a sua excelente Biblioteca) acabariam por permanecer em Portugal tendo sico cedidos em regime de comodato ao Estado português, integrando hoje a Biblioteca de Arqueologia da DGPC (Palácio Nacional da Ajuda). 

Sobre a importância desta instituição alemã no desenvolvimento da Arqueologia portuguesa, e a quem tanto devem muitos arqueólogos da minha geração, falam por si os textos que a seguir se transcrevem da referida brochura de 1991  (textos de Theodor Hauschild director da delegação de Lisboa do DAI e Hermanfrid Schubart, director do DAI, em Madrid). A estes arqueólogos alemães, me ligam especiais relações profissionais e de amizade, também extensíveis a Philine Kalb, Martin Hock e Michael Kunst. A sua ligação a Portugal é de tal ordem que alguns deles (como o Martin, a Philine ou o Haushild) escolheram mesmo o nosso país para residência, uma vez aposentados.



Martin Hock e Philine Kalb em visita recente à Gruta do Escoural (2017)

Theodor Hauschil no Museu de Évora, em 2014


http://pedrastalhas.blogspot.pt/2014/10/a-visita-do-mestre-evora-o-nome-de.html

















segunda-feira, 24 de julho de 2017


ANTÓNIO MARTINHO BAPTISTA

Na plenitude do Tempo




A primeira aula prática de Arqueologia de que guardo memória, provavelmente já em momento bem adiantado do Outono de 1970 (as aulas começavam sempre tarde na Universidade), aconteceu no primeiro andar do Museu Nacional de Arqueologia (e Etnologia, como então se chamava). Tratava-se de um amplo espaço, inacabado e sem qualquer divisória interior, uma espécie de sótão desenvolvendo-se a todo o comprimento da ala do Mosteiro dos Jerónimos, fronteira ao Jardim do Império. Ao longo desse imenso "sótão", alinhavam-se centenas de vitrines ordenadas por ordem cronológica e pejadas de materiais arqueológicos, organizados por grupos tipológicos (pedras, cerâmicas, metais...) . Era junto a uma dessas vitrines, localizada no topo nascente do "corredor", que se aglomeravam nesse dia os estudantes do 1º ano do curso de História que ali iriam ter com o Professor Luis de Matos (então assistente de Fernando d'Almeida que acumulava a Cátedra de Arqueologia e a Direcção do Museu), a sua primeira aula de Pré-história, ou mais especificamente, a crer nos calhaus acumulados na vitrine, a primeira sobre Paleolítico. Quando cheguei a lição já começara pelo que ao aproximar-me do grupo, com alguma ansiedade pois não conhecia ainda praticamente nenhum colega, reparei em particular num dos presentes. A sua farta cabeleira dava nas vistas, ainda que fosse um sinal dos tempos, mas era o blusão amarelo torrado que o destacava do cinzentismo geral do grupo.

Foi este o meu primeiro contacto com António Martinho Baptista,  um dos colegas da Universidade com quem, a par do Vítor Serrão, mais privei ao longo do curso, pelo menos até concluirmos o bacharelato em 1973 e começarmos todos a definir áreas de interesse profissional que acabariam por nos dispersar, ainda que com sucessivos reencontros e cruzamento de projectos ao longo das nossas carreiras. Naturalmente, teria um peso muito significativo na estreita relação então criada entre nós e que envolvia outros colegas do mesmo curso (como o Francisco Sande Lemos, a Teresa Marques, o Jorge Pinho Monteiro ou a Susana Lopes, por exemplo), o desencadear do processo de salvamento da arte rupestre do Vale do Tejo, circunstancia que nos arrastaria a todos, mesmo os que não se interessavam tanto pela Arqueologia, para Vila Velha de Ródão durante os largos períodos que duravam as sucessivas campanhas de campo. E seria no Ródão que o alentejano António Martinho Baptista (conhecido pelo "Barão de Alter", entre os amigos do Instituto Superior Técnico, cuja cantina frequentava porque o seu quarto de estudante ficava para as bandas da Praça do Chile) começaria a longa caminhada de estudo da arte rupestre portuguesa, os tais 45 anos de "Estudos em Arqueologia Rupestre, do Tejo ao Côa, passando pelas montanhas do Noroeste" (e pelo Vale do Guadiana, poder-se-ia também acrescentar...) de que fala o cartaz  da conferencia que assinalou na semana passada o seu regresso a Braga após a recente aposentação do lugar de Director do Museu do Côa.

Numa altura em que aguardo também a aposentação e em que, por ordem natural das coisas, é toda uma geração de arqueólogos que chega ao final das respectivas carreiras (uma geração que julgo especialmente bafejada pela sorte dos tempos mas que, como maior ou menor sucesso, foi capaz de cavalgar a onda de oportunidades proporcionada pelas transformações políticas e sociais entretanto verificadas), não queria deixar de assinalar neste espaço de memórias, os 47 anos de amizade com o António, a quem me ligam tantos e tantos laços de ordem pessoal ou profissional. Destaco em particular a pronta resposta ao apelo que em nome da EDIA lhe dirigi no final do ano 2000, quando na sequencia da descoberta de arte rupestre no Guadiana espanhol, se identificaram os primeiros núcleos em território do Alandroal e cujo reconhecimento seria obrigatório promover sem demoras. Com enorme sacrifício pessoal, dadas as condições do terreno e as circunstancias da descoberta, AMB envolveu-se directamente com a sua experimentada equipa do extinto Centro Nacional de Arte Rupestre, no projecto de registo arqueológico dos múltiplos painéis gravados então descobertos em cotas de inundação e cujos resultados seriam editados em 2013  (ver aqui). Já depois dessa data e embora em condições menos dramáticas, não deixou de aparecer pelo Escoural (2009), contribuindo com o seu conhecimento e experiência quando, nos trabalhos de renovação das estruturas de visita da conhecida Gruta paleolítica, ali encontrámos vestígios rupestres inéditos. Levaria mesmo a sua amizade ao ponto de aceitar escrever todo um capítulo de reenquadramento da arte rupestre do Escoural, face às descobertas entretanto verificadas nas últimas décadas, no livro que preparei por ocasião da reabertura da Gruta ao público (Escoural, uma Gruta Pré-histórica no Alentejo, 2011).

Impossibilitado pela distância de participar no encontro em boa hora promovido pelo Museu D.Diogo de Sousa (há ali mão da minha amiga Isabel Silva, a actual directora e de algum modo companheira mais jovem das andanças desta geração de arqueólogos) as fotos que se seguem e que recuperei nas mais variadas fontes representam a minha simples homenagem ao António e ao que ele representa para mim e para tantos outros colegas e amigos, como pessoa e arqueólogo.

Em tempo e a propósito: http://www.noticiasmagazine.pt/2017/antonio-martinho-baptista/

António Carlos Silva e António Martinho Baptista (à direita) com o Luis Raposo e o João Ludgero, à esquerda, junto à Lapa do Fuma (Sesimbra). A foto deverá datar de 1971, eventualmente tirada por Francisco Sande Lemos. O Luis e o João eram mais novos e ainda não estariam na Universidade mas pertenciam ao GEPP.




Duas fotos de grupo na estação do Ródão (a ligação para os trabalhos no Fratel, era feita muitas vezes recorrendo ao combóio). O AMB aparece em ambas, em cima à esquerda conversando com Jorge P.Monteiro e Helena Afonso (a cantora lírica). Em baixo, ao meio entre ACS e Rui Parreira. Fotos de 1972?




Fotos de grupo na Pensão Castelo do Porto do Tejo (Ròdão) a que carinhosamente chamávamos "pensão da velha", perante a forte personalidade da proprietária, tia do nosso (posterior) companheiro de trabalho arqueológico, o Eng, Luis Caninas. As fotos deverão datar de 1972 e o AMB aparece sempre com o seu inconfundível boné...
A caminho de mais uma jornada de trabalho na arte rupestre do Vale do Tejo (1972?).António Martinho Baptista, ao centro e Helena Afonso, à direita. Em primeiro plano, a estudante americana Diana, ao tempo aluna na Faculdade de Letras de Lisboa e que por essa via participaria numa das campanhas do Ródão...fazendo alguns estragos afectivos.

AMB aplicando a técnica de moldagem com latex, de que se tornou especialista, numa das rochas do Cachão do Algarve (Perais- V.V.Ródão)

AMB, Luis Raposo, Teresa Marques e ACS em primeiro plano, em pleno vale do Tejo pré Barragem do Fratel, num enquadramento paradigmático.





 Em 1975, em pleno Verão Quente, os alunos do curso de 1970/71, já então misturados com colegas de cursos mais recentes, participariam numa última grande actividade curricular em comum, promovida por José Morais Arnaud, à época assistente convidado da Faculdade de Letras (por decisão dos alunos) e actual presidente da Associação dos Arqueólogos Portugueses. Tratou-se do Campo Arqueológico do Penedo do Lexim, complemento prático de uma das cadeiras lecionada pelo Zé Arnaud. O AMB só na foto do meio (à direita) não exibe o seu característico boné.
http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/11/no-penedo-do-lexim-ha-40-anos-o-link.html






Já no Guadiana (2001) a equipa do CNART dirigida por AMB, procede aos trabalhos de registo da arte rupestre, por fotografia noturna, decalque e moldagem

AMB exemplifica no Guadiana a técnica de moldagem, com recurso ao "silicone" mais fiável do que o "latex".

Guadiana, 2001- AMB acompanha o Presidente do CA da EDIA (Adérito Serrão) numa visita aos trabalhos de campo




AMB enfrentando o "circo mediático" em torno das descobertas da arte rupestre no Alqueva

A monografia publicada por AMB e André Santos, sobre a arte rupestre do Guadiana português.




AMB fotografando o painel de pinturas, dito do "baldaquino", na Gruta do Escoural (2009)



António Martinho Baptista e António Carlos Silva, na Gruta do Escoural em 2009 (foto de André Santos)
Em devido tempo (26/7/2017), e com a devida vénia, aqui transcrevo o texto que o Luis Raposo acaba de divulgar no seu Facebook sobre o AMB:

Ainda acerca do António Martinho Baptista: a minha evocação no livro que lhe foi dedicado.
Recordação do que fica, depois de (quase) tudo esquecido
Há meia dúzia de anos, quando assinalámos quatro décadas passadas sobre a descoberta da arte rupestre do vale do Tejo, referi-me a esse binómio de espaço e tempo como “o eixo vertebrador do meu mundo” (em Açafa, nº 4, 2011, um volume imperdível, que pode ser obtido em linha: http://www.altotejo.org/acafa/acafa_n4.html). Embora subentendido, porque, para citar Marc Bloch, por sermos historiadores amamos a vida, faltou talvez nessa ocasião ser então mais enfático para com os companheiros que povoaram aquele meu e nosso mundo, a chamada “geração do Tejo”, na expressão feliz de um de nós, o António Carlos Silva.
Ora, sem desprimor de nenhum outro, permitam-me neste momento que evoque dois, entre todos: o Jorge Pinho Monteiro, com quem especialmente aprendi o gosto pela teoria e o rigor analítico como chaves de entendimento do que nos rodeia; e o António Martinho Baptista, que sobretudo me ensinou a viver, com alegria de vida.
Dificilmente encontraremos em alguém a singular combinação entre teoria e prática que o António protagonizava. Ele era certamente o mais vivido de todos nós, o que melhor juntava, na sua e nossa juventude de então, o conhecimento do campo com o da cidade. O que tanto podia construir sedutoras teses estruturalistas, sobre profano ou sagrado, como logo depois as desfazer com a sabedoria dos simples, muitas vezes resumida em observações desarmantes. Isto sem esquecer o hábito alentejano das alcunhas e dos ditos acutilantes. Desde muito cedo, no melhor tempo da minha vida, devo ao António algo que ainda transporto em mim: não me levar, nem levar os outros, demasiado a sério. Ser relativo em tudo da vida. E guardar em relação a pessoas e situações as distâncias críticas de um Zé Povinho.
Coube-me na rifa, em Ródão, integrar a equipa de moldagem, dirigida pelo António. Não foi preciso muito tempo para que recebesse a alcunha do “senhor bolha”, porque paciência não é um dos meus fortes, para mais debaixo das tórridas temperaturas rodanenses, e na pressa de aplicação da borracha líquida (latex) ia deixando bolhas entre cada camada (o mestre, esse tinha toda a paciência, como se vê na foto junta…). Claro que teria preferido ser “bacaninha”, mas essa alcunha já estava tomada. E a verdade é que era justa a observação.
Ao longo dos tempos, fomo-nos vendo de forma cada vez mais esparsa. Mas fui sempre encontrando o António nos mesmos combates, no mesmo lado das barricadas. Aliás, sexagenários ou até septuagenários que somos hoje, podemos dizer que a nossa geração, a “geração do Tejo”, continua toda do mesmo lado, do lado bom da vida. E permanecemos além disso amigos. Muito amigos, mesmo.
Luís Raposo

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Regresso à "Vila Velha" e ao Lumumba



Muitos anos antes de ter tido oportunidade de ler o livro do Embaixador José Cutileiro, "Ricos e Pobres no Alentejo" (que recomendo vivamente a quem queira ter uma ideia do que era socialmente o Alentejo há meio século atrás...) já Monsaraz (a "Vila Velha" de Cutileiro) fazia parte do meu roteiro arqueológico pessoal. Não consigo naturalmente precisar quando ali estive pela primeira vez, provavelmente algures no início dos anos 70, quando o meu pai comprou o tal "Toyota Corolla" que viera para ficar nos tempos do Marcelo Caetano e começámos a fazer algumas incursões turístico-culturais familiares... (a ida ao "borrego a Monsaraz", seria mais tarde uma daquelas tradições obrigatórias a quando das estadias dos meus pais em Évora). De facto, quando nas férias da Páscoa de 1975, andei por estas paragens integrando uma equipa de estudantes do velho GEPP (Grupo para o Estudo do Paleolítico Português), já em prospecções pré-Alqueva (sugeridas pelo então nosso Professor de Práticas e Materiais Arqueológicos (?) José Morais Arnaud), a região já não me era completamente desconhecida e Monsaraz, pela sua localização estratégica serviu de apoio às pesquisas que então fizémos nos terraços fluviais do Xerez (ou Xarez) que se desenvolvem nas planícies que acompanham o Guadiana nesta zona. Recordo até a visita que fizémos nessa "expedição" ao médico Dr. Pires Gonçalves (o grande estudioso do megalitismo da região e defensor de Monsaraz) que nos recebeu, algo desconfiado, no seu consultório de Reguengos. O nosso aspecto não deveria ser muito recomendável e o velho médico só baixou a guarda quando percebeu que éramos estudantes de arqueologia, alguns já então ligados à Associação de Arqueólogos Portugueses, de que Pires Gonçalves, dadas as suas ligações a Afonso do Paço, era sócio proeminente. Deve também datar dessa viagem a primeiríssima incursão gastronómica ao Restaurante Lumumba que abriu as portas nesse mesmo ano de 1975. De entre os locais com interesse arqueológico que então identificámos na região, destacava-se uma plataforma que apresentava muitos materiais líticos pré-históricos em superfície, atravessada pela velha estrada que ligava a colina de Monsaraz à Ponte metálica de Mourão e que cruzava toda a baixa do Xerez, passando junto à Anta e ao Cromeleque do Xerez, este identificado e restaurado pelo referido médico Pires Gonçalves (ver aqui a curiosa história da sua identificação ) alguns anos antes. Denominámos o sítio como "Xerez de Baixo" e atribuímos os achados líticos ao Paleolítico Médio, tendo decidido que oportunamente ali realizaríamos algumas sondagens para verificar se existia ainda um contexto estratigráfico preservado que nos permitisse enquadrar os abundantes materiais de superfície. Recorde-se que por esta época, o GEPP, concluído o "salvamento da Arte Rupestre do Tejo", iniciava trabalhos deste tipo nos terraços do Tejo em Vilas Ruivas (Ródão), com resultados muito interessantes, descobrindo-se então as mais antigas "estruturas de habitat" (Paleolítico Médio) jamais identificadas em Portugal.
Aspecto dos trabalhos arqueológicos no Xerez de Baixo em 1979. A segurar na mira no corte da estrada, o Francisco Serpa enquanto a Ana Raposo lê as cotas. O vestuário é de Inverno, pois julgo que a campanha terá sido realizada por altura do Carnaval.


Entusiasmado com os resultados de Vilas Ruivas, o Luis Raposo viria a sugerir-me a realização de trabalhos no Xerez, tendo-se proporcionado a ocasião no Carnaval ou Páscoa de 1979, após termos conseguido o apoio logístico da Câmara Municipal de Reguengos. A pequena equipa lisboeta pernoitaria numa sala da Junta de Freguesia (por cima da célebre pintura a fresco do "Bom e do Mau Juiz", hoje Museu do Fresco) e jantávamos (de que maneira, após um almoço de sandes...) no Restaurante Lumumba. Localmente tínhamos o apoio do reguenguense Rafael Alfenim (então ainda estudante de Arqueologia em Coimbra, e meu colega de trabalho há muitos anos) e de Francisco Serpa, funcionário da Câmara Municipal, o qual apesar de há muitos anos emigrado no Algarve (onde foi "guardião" da lindíssima Igreja de Nª Sª de Guadalupe, na Raposeira, até se aposentar), ainda hoje é uma "lenda viva" da arqueologia e etnografia da sua Reguengos natal. Desta campanha de trabalhos, cujos inesperados e problemáticos resultados apresentámos no ano seguinte no IV Congresso Nacional de Arqueologia (Faro,1980- ver aqui) e que só por si mereceriam uma entrada especial neste blog (fica para outra oportunidade) restam algumas referências muito específicas, que então não valorizei, mas que viriam a ganhar especial significado à medida que a minha carreira posterior e até a minha vida pessoal e familiar se orientava para o Alentejo.

As escadas de acesso às instalações que a Junta de Freguesia nos cedeu para pernoita e trabalho, hoje Museu do Fresco
Hoje, até porque lá passei muito recentemente, interessava-me destacar o Restaurante Lumumba. Há actualmente outros restaurantes em Monsaraz, vila que naturalmente, apesar de manter a sua estrutura arquitectónica, já pouco tem que ver com a Monsaraz dos anos 70 e muito menos com a "Vila Velha" de José Cutileiro. É a vida, como dizia o outro... Mas para mim, com poucas excepções, ao longo destes últimos 42 anos, o Lumumba é o "Restaurante de Monsaraz" que apesar da ASAE, consegue manter muitas das características que sempre lhe reconheci. E espanto dos espantos, mantem-se na posse do seu proprietário de sempre, o mesmo que já nos aturou nas escavações do Xerez de Baixo (o sr.José Lumumba). Em evidente contraste, esta feliz e rara circunstância, trás-me à memória um outro restaurante a que me ligam também especiais recordações arqueológicas e cuja situação (abandonado e em ruínas) o meu velho amigo beirão Joaquim Baptista, recentemente lamentou. Refiro-me ao Restaurante do Rei Wamba, junto à Ponte de Vila Velha de Ródão, que não sobreviveu à doença e à morte prematura do seu proprietário, o sr. Ramalhete.

O Restaurante Lumumba, na Rua Direita
A entrada do Restaurante...a sensação de regresso ao passado!

Uma nota final. Procurei junto do Sr. José Lumumba saber de uma figura amiga que ao longo dos anos, sempre me habituara a ver em Monsaraz mas de quem não tinha notícias há muitos anos (até porque deixei de ser assíduo por estas paragens desde que, coincidindo com o início da grande "revolução paisagística" aqui verificada, deixei as minhas funções na EDIA/Alqueva). Refiro-me a José Ferro, funcionário da Junta de Freguesia, que sempre conheci como responsável pelo Posto de Turismo local e que soube agora ter falecido há já alguns anos. Afinal a "Vila Velha", apesar dos "liftings" e mesmo com o Lumumba a resistir, já não é a mesma.


Afinal, a "grande revolução" de Monsaraz. O sítio do Xerez de Baixo (hoje submerso) situava-se umas centenas de metros para lá da actual ponte de Mourão, ao centro da foto.


PS_ já que a propósito do resistente Lumumba recordei o desaparecido Restaurante "Ramalhete" ou "Rei Wamba" de Vila Velha de Ródão (logo a seguir á Ponte, aqui fica uma rara foto de uma refeição durante as escavações em Vilas Ruivas no final dos anos 70. À falta de outras referencias, a garrafa de vinho da Cooperativa do Fundão, não deixa margem para dúvidas...

Reconhecem-se à esquerda o "Mike" (João Pimenta), a Maria João Coutinho, o Zé Mateus e a Mª José Moinhos. António Carlos Silva no topo da mesa. À direita, o Francisco Sande Lemos em primeiro plano. Na mesma fila, ao fundo, julgo identificar o José Sardinha, um amigo meu da Amadora que participava nos trabalhos por curiosidade...