sexta-feira, 23 de junho de 2017


António Cavaleiro Paixão

Recordando um amigo e um colega



Está finalmente editado e pronto a ser apresentado mais um volume da já centenária revista "O Arqueólogo Português", fundada por Leite de Vasconcelos no início do século passado. Como habitualmente, sem que grande mal venha daí ao mundo, o número em causa surge com um atraso significativo, já que respeita aos anos de 2014-2015. Tal circunstancia explica que também apenas agora se cumpra uma tradição da mais importante revista arqueológica nacional, assinalando-se na presente edição, o desaparecimento de um arqueólogo com especial ligação ao Museu Nacional de Arqueologia, a entidade desde sempre responsável pela edição. Refiro-me ao arqueólogo António Cavaleiro Paixão, falecido em 2014, e cuja memória é assinalada nesta edição, através da publicação de um texto que, por convite do actual Director, António Carvalho, tive a honra de preparar. A leitura do mesmo, que aqui reproduzo, enriquecido por algumas fotos pouco conhecidas, permitirá compreender porque é que aceitei, de alma e coração, a tarefa que me foi proposta.





“IN MEMORIAM”
António Cavaleiro Paixão 
(23 de Abril de 1939-29 de Maio de 2014)

António Manuel Cavaleiro Paixão, arqueólogo falecido em Maio de 2014 após prolongada doença, foi uma figura determinante no contexto do desenvolvimento da arqueologia pública em Portugal no último quartel do Século XX. Com efeito quando em 1980, após a criação do Instituto Português do Património Cultural (IPPC), foi finalmente possível começar a erguer estruturas técnico-administrativas capazes de responderem aos desafios da salvaguarda e valorização do património arqueológico no território português, a geração que se abalançou nessa tarefa - e da qual me orgulho de fazer parte- não partia do zero. Já então no seio da Administração Pública, quer em gabinete quer no terreno, um par de arqueólogos ainda que enfrentando imensas dificuldades, procurava há algum tempo fazer a ponte entre o passado anquilosado e inoperante das estruturas consultivas da extinta Junta Nacional da Educação e as crescentes ameaças que a urgência da recuperação de meio século de subdesenvolvimento colocava à defesa dos vestígios arqueológicos. Entre eles destacava-se já o António Cavaleiro Paixão. Pertencia a uma geração etária um pouco mais velha, mas foi contemporâneo na Faculdade de alguns dos arqueólogos que então se destacaram no processo de transformação da Arqueologia portuguesa e que, como ele, tinham encontrado acolhimento e apoio no Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia ao tempo do Director Fernando de Almeida. Esta circunstância, associada a uma actualizada formação e a um invulgar currículo de campo, habilitaram-no no momento certo, a ser um precioso interlocutor entre a Administração e as novas gerações de arqueólogos. Para tal contribuíram as suas reconhecidas qualidades humanas de afabilidade, modéstia e bom humor que faziam de si, pese embora a diferença de idade ou de estatuto profissional, um colega sempre pronto a partilhar experiências ou a responder a novos desafios, sem suspeições estéreis ou segundas intenções. Reforçavam aquelas características um elevado sentido de serviço público, que se traduziriam ao longo da sua carreira quer na actividade como docente de Arqueologia quer nas funções que assumiu nas organizações científicas a que pertenceu, com destaque para a Associação de Arqueólogos Portugueses, de que foi vice-presidente entre 1979 e 1987 ou para a Sociedade de Geografia de Lisboa, onde dirigiu até 1990 a respectiva secção de Arqueologia. Tive o prazer de ser seu colega no IPPC durante quase uma década e a honra de ter sido seu superior hierárquico durante algum tempo, enquanto director do Departamento de Arqueologia, pelo que foi com sentido de dever e quase como obrigação moral, que aceitei o convite do Director do MNA para redigir este mais que justificado “in memoriam” esperando que o mesmo contribua para consolidar a ligação do seu nome a esta prestigiada revista e ao Museu onde, como colaborador, iniciou há meio século a sua carreira de arqueólogo.

António Cavaleiro Paixão, à esquerda, divertindo-se num intervalo das escavações da Lorga de Dine (Vinhais) em 1964. A foto, provavelmente da autoria do próprio Carl Harpsöe, chegou-me através do malogrado arqueólogo Rui Boaventura

António Cavaleiro Paixão nasceu em Lisboa em 23 de Abril de 1939, filho de um funcionário público oriundo de Torres Novas, Manuel Alexandre Paixão e de mãe lisboeta, Dália da Luz Cavaleiro. O seu interesse pela arqueologia, conforme o próprio refere em nota curricular constante do seu processo de funcionário público, remonta a 1959 altura a partir da qual participa com regularidade nas actividades do departamento de paleoetnologia da Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE), dirigido por Carl Harpsöe. Sob a direcção deste arqueólogo e espeleólogo amador, de origem dinamarquesa mas há muito radicado em Portugal, António Cavaleiro Paixão irá ter as primeiras experiências práticas de escavação, nomeadamente na Lorga de Dine (Vinhais, Bragança) em 1964 e na Gruta de Ibn-Ammar (Mexilhoeira, Lagoa) em 1965. Como colaborador da SPE participou também nos trabalhos de reconhecimento subsequentes à descoberta da Gruta do Escoural (1963), nos quais Carl Harpsöe teve um papel importante no apoio logístico e técnico a Farinha dos Santos na sua deslocação ao Escoural em nome do Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia e a pedido do Prof. Manuel Heleno. Para além de ter participado no primeiro levantamento topográfico da gruta, realizado em 1964, Cavaleiro Paixão teve oportunidade de em Janeiro de 1965, colaborar nos trabalhos de levantamento da arte rupestre realizados no Escoural pelo conhecido arqueólogo francês André Glory, aquando da sua visita a Portugal no contexto da controvérsia sobre a cronologia dos vestígios rupestres entretanto ali identificados por Farinha dos Santos. Pessoalmente, estou em crer que a oportunidade de colaborar directamente com um especialista de renome internacional como Glory, então a estudar a famosa Gruta de Lascaux, poderá ter sido determinante na vocação arqueológica de António Cavaleiro Paixão.

António Cavaleiro Paixão, com André Glory, durante o reconhecimento efectuado pelo conhecido arqueólogo francês na Gruta do Escoural, em Janeiro de 1965

De facto, após uma curta passagem pela vizinha Faculdade de Direito, António Cavaleiro Paixão inscrevera-se em 1963 na Licenciatura em História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, na época e ainda por muitos anos, a única via possível de se obter em Portugal uma formação superior abrangendo disciplinas arqueológicas. Dadas as naturais limitações teóricas e práticas do curso, face à sua amplitude temática, Paixão procurava no trabalho voluntário de campo, o indispensável complemento formativo. Assim, em 1966, talvez pela mão de Fernando de Almeida que patrocinava o projecto na Junta Nacional de Educação, teve oportunidade de integrar o grupo de estudantes portugueses que participou nas grandes escavações do Castro do Zambujal (Torres Vedras) promovidas pela delegação madrilena do Instituto Arqueológico Alemão, sob a direção científica de Hermanfrid Schubart e Edward Sangmeister, da Universidade de Friburgo. Quer pelo elevado nível metodológico da escola alemã, quer pelo número e interesse dos participantes, a escavação do Castro do Zambujal ficou conhecida como a escola prática da moderna arqueologia pré-histórica portuguesa. Ainda na sequência desta experiência e a convite dos arqueólogos alemães, Cavaleiro Paixão teve também oportunidade, de estagiar algum tempo nas escavações da necrópole fenícia de Toscanos (Málaga), o que lhe permitiu um primeiro contacto com uma realidade arqueológica a que pouco tempo depois, por sugestão do próprio Fernando de Almeida, se dedicaria a fundo em Alcácer do Sal. Com efeito, o interesse, gosto e disponibilidade da parte do aluno Cavaleiro Paixão por esta disciplina, então profissionalmente muito pouco atrativa, terá chamado a atenção daquele professor que acabara de substituir Manuel Heleno na Cátedra de Letras e na direção do Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia (1966). De personalidade bem distinta do antecessor, o novo diretor irá ver nos mais jovens, nomeadamente nos seus alunos, a possibilidade de romper com a imagem de imobilismo e secretismo que o Museu de Belém granjeara com as célebres “reservas”, inacessíveis durante décadas. É esta nova atitude de abertura e confiança da parte do mestre, conjugada com as qualidades e a experiência efectiva de campo já demonstradas pelo aluno, que explicam a extraordinária proposta de tema de dissertação sugerida a Cavaleiro Paixão: o estudo arqueológico da Necrópole Proto-histórica do Senhor dos Mártires em Alcácer, escavada meio século antes por Virgílio Correia por conta do Museu, mas cujos materiais apesar da sua enorme importância científica, se mantinham inéditos. Para qualquer pessoa minimamente informada sobre a realidade arqueológica portuguesa da época, aquela proposta só pode ser entendida como demonstração de uma grande confiança neste aluno e nas suas potencialidades, e como aviso público de que, daí em diante e sob a sua orientação, não haveria temas ou materiais tabus no Museu.

Respondendo corajosamente ao repto do Professor e garantido o seu indispensável apoio na Junta Nacional de Educação, Cavaleiro Paixão não apenas retoma o estudo dos materiais de Virgílio Correia, como entre 1967 e 1968, procede a novas escavações em Alcácer do Sal próximo do Santuário do Senhor dos Mártires, as primeiras que dirigirá durante a sua longa carreira. Face à ausência de dados concretos das escavações de Virgílio Correia (1925-27), nomeadamente de dados topográficos e estratigráficos, o plano que pôs em prática visava antes de mais a relocalização da necrópole e a descoberta de novas sepulturas em contexto estratigráfico. Numa primeira sequência de sondagens os seus esforços foram infrutíferos, mas posteriormente, conjugando dados de observação do terreno com informação oral recolhida localmente, viria a descobrir e escavar oito sepulturas de incineração que lhe proporcionaram dados essenciais para a sua dissertação. Com efeito, as sepulturas escavadas apresentavam um significativo conjunto de materiais da II Idade do Ferro, na sua maioria metálicos, incluindo ainda três pequenos escaravelhos de tradição egípcia, o que não sendo uma novidade no caso de Alcácer do Sal, vinha confirmar a importância do seu porto nas ligações com o mundo mediterrânico, ao longo do último Milénio antes de Cristo.

Significativamente, ainda no contexto destes trabalhos de campo em Alcácer do Sal, Cavaleiro Paixão, seria pela primeira vez confrontado com a necessidade de dar resposta a uma “emergência arqueológica”, uma situação com que viria a deparar-se amiúde ao longo da sua futura carreira profissional. De facto, no âmbito de obras municipais de alargamento da Azinhaga do Senhor dos Mártires, viu-se compelido a escavar diversas sepulturas da vizinha necrópole romana, descoberta no decurso da obra. Anos mais tarde, durante as décadas de setenta e oitenta, perante os avanços das novas urbanizações associadas a esta azinhaga, Cavaleiro Paixão viria ciclicamente a intervir neste local de antiga tradição funerária, já como arqueólogo ao serviço da Administração Pública. Foi também nesta intensa fase de trabalho de campo, coincidindo com o período final da frequência do curso de História e a preparação da sua dissertação, que Cavaleiro Paixão tomou pela primeira vez contacto com as ruínas romanas de Tróia. Com efeito, em 1968 coadjuvou Fernando de Almeida na escavação de diversas sepulturas paleocristãs desta importante estação arqueológica do estuário do Sado, iniciando um ciclo de investigação que acompanharia praticamente toda a sua carreira. Naturalmente, em 1969 e 1970 concentra-se nos preparativos da dissertação. Analisa e descreve os materiais depositados no Museu Nacional, no Instituto de Arqueologia de Coimbra e no Museu Municipal de Alcácer do Sal, bem como o das suas próprias escavações, em especial o importante conjunto metálico, que incluía cubos e arreios de carros, armas, jóias e objetos de adorno, promovendo a sua análise metalográfica e usando os dados obtidos nas suas conclusões. Por fim, tirando partido dos contactos estabelecidos no Zambujal e em Toscanos com a delegação madrilena do Instituto Arqueológico Alemão, obtém do seu director Helmut Schlunk autorização para aí estagiar durante um mês, com livre acesso à valiosa biblioteca, cuja consulta se revela preciosa para o tema que investiga. Naturalmente, aproveita a proximidade do Museu Arqueológico de Madrid e a solicitude do seu Director Martin Almagro para usar também a respectiva biblioteca e aceder ao departamento de restauro para observação e estudo de espólios de Ávila e de Granada que lhe interessam.

Capa da tese de licenciatura de António Cavaleiro Paixão


Em 29 de Julho 1970, conclui a licenciatura em Ciências Históricas com a defesa da sua dissertação de licenciatura, dedicada “com muita consideração e estima”, ao Professor Fernando de Almeida, mas não esquecendo no prefácio outros professores que o terão marcado particularmente, como Virgínia Rau, Borges de Macedo e ainda Jorge de Alarcão, da Universidade de Coimbra, neste caso pelas facilidades de acesso aos materiais de Virgílio Correia, depositados no Instituto de Arqueologia. Tinha então 31 anos, revelando-se esse ano determinante para toda a sua futura vida pessoal e profissional. De facto, ainda em 1970 apresenta-se com duas comunicações sobre a necrópole de Alcácer do Sal, ao 2º Congresso Nacional de Arqueologia realizado em Coimbra, uma das quais em conjunto com Judite Cavaleiro Paixão, a colega de curso com quem casou também nesse ano, a mãe dos seus dois filhos, Gonçalo e Susana e companheira de toda a vida. Também nesse ano seria admitido como técnico estagiário, na Junta de Investigações do Ultramar, entidade que através do Centro de Estudos de Etnologia do Ultramar integrava algumas componentes de investigação antropológica e arqueológica ultramarina cuja tradição remontava a Mendes Correia que chegara a ser seu Presidente e que conhecera nos seus quadros nomes como o de José Camarate França ou Santos Júnior. A sua permanência na J.I.U. seria, no entanto, de curta duração, de Maio de 1970 a Dezembro de 1971, prelúdio para outros voos. No final de 1971, António Cavaleiro Paixão foi contratado como Assistente da recentemente criada Universidade de Lourenço Marques (Moçambique), para onde parte acompanhado pela esposa, no início de 1972. Aí permanecerá até Setembro de 1974, tendo lecionado durante 3 anos letivos, Pré-história, História da Antiguidade Oriental, História da Expansão Portuguesa e História do Brasil, cadeiras comuns aos curricula dos cursos de História da “metrópole”. Apesar da sua curta estadia em Moçambique, Cavaleiro Paixão não deixou de se interessar pela arqueologia local. Começa por se debruçar sobre uma série de concheiros dos arredores de Lourenço Marques referenciados por Santos Júnior no âmbito das missões antropológicas de Moçambique (1936-56). Posteriormente, chegou a propor um programa de pesquisas arqueológicas para a região de Massingir, no Rio dos Elefantes. Em Abril de 1974 participou num estágio sobre Pré-história Africana na Universidade de Witwatersrand (Joanesburgo) a convite do Prof. Revil Mason. Em Setembro de 1974, em pleno processo de descolonização de Moçambique, regressa definitivamente a Portugal, com cuja arqueologia não chegara a perder o contacto. Em Outubro de 1973 participara no XI Congresso Nacional de Arqueologia de Espanha, realizado em Huelva e em Dezembro de 1974, pouco depois do regresso de África, está já presente em Badajoz no Congresso de Estudos Estremenhos com uma comunicação sobre o mausoléu lusitano-romano de Tróia, retomando a colaboração com Fernando de Almeida, que entretanto se aposentara (1973). É certamente no âmbito deste reencontro com o antigo professor e numa fase de alguma indefinição profissional que se seguiu ao regresso de Moçambique, que é temporariamente contratado pela empresa Torralta (1975) para se ocupar da direção de trabalhos arqueológicos em Tróia. Mas a colaboração com o Professor era mais ampla, enquadrando outros estudos como o que, conjuntamente com a esposa Judite Paixão, produz nesse mesmo ano sobre os materiais visigóticos da Igreja de São João dos Azinhais ou Capela de Arranas, próximo do Torrão, mas apenas publicado em 1978 na “Setúbal Arqueológica”. Terá sido ainda nesse contexto de indefinição profissional que António Cavaleiro Paixão se viu compelido a uma curta incursão pelo ensino secundário, tendo estado colocado na Escola Preparatória Nuno Gonçalves no ano lectivo de 1975-76. Mas seria aí que o Dr. Nunes de Oliveira, alto quadro do Ministério da Educação e Cultura, o iria requisitar para reforçar os escassos meios humanos, na área da arqueologia, da Direcção Geral do Património Cultural, um organismo recente que viera substituir a velha Direcção Geral do Ensino Superior e Belas Artes, do Ministério da Educação Nacional que durante décadas superintendia, com o apoio das respectivas secções e subsecções consultivas da Junta da Educação Nacional, em tudo o que dizia respeito aos museus, arquivos e bibliotecas, monumentos e arqueologia.

António Cavaleiro Paixão, à direita, nas ruínas da Basílica de Tróia


A entrada de António Cavaleiro Paixão, em Julho de 1976, para a Direcção Geral do Património Cultural, bem como a da sua esposa Judite Cavaleiro Paixão, reforçando uma equipa que contava apenas com João Bairrão Oleiro, normalmente em cargos dirigentes e com Bandeira Ferreira, já então afastado dos trabalhos de campo, dá-se no contexto de um ambicioso projecto para a elaboração da Carta Arqueológica de Portugal. Embora nascido no seio da Direcção Geral, o projecto contava com o apoio financeiro da Gulbenkian, pela mão do Prof. Artur Nobre de Gusmão, director do Serviço de Belas Artes da Fundação. Ainda que se reconhecesse a necessidade da colaboração das Universidades, a viabilidade do projecto “Carta Arqueológica de Portugal” exigia um mínimo de enquadramento técnico da própria Direcção Geral, para o que seriam necessários arqueólogos experientes. Por proposta de Nunes de Oliveira, António e Judite Cavaleiro Paixão seriam finalmente requisitados expressamente para esse efeito. António coordenaria uma equipa de campo e Judite Cavaleiro Paixão, dada a sua formação específica em BAD, assumiria a componente documental e arquivística. O projecto, apesar do apoio da Gulbenkian, após a realização de um curso de prospeções em 1977 para colaboradores eventuais e no qual António Cavaleiro Paixão foi formador, acabou por sucumbir após uma curta experiência de terreno na zona da barragem do Alvito, mas a sua preparação, acabou por contribuir para a criação, poucos anos depois, no seio do IPPC (1980) de uma divisão de inventário arqueológico com atribuições específicas de cartografia e que seria organizada e dirigida durante algum tempo pela própria Judite Paixão. Quanto a António Cavaleiro Paixão, enquanto único arqueólogo de campo ao serviço da DGPC, desdobrou-se desde então na resposta às situações de emergência, nomeadamente em Alcácer do Sal, onde as necessidades de infraestruturas chocavam permanentemente com os vestígios do passado.
António C.Paixão, observando um corte estratigráfico, durante obras na proximidade do Olival do Sr. dos Mártires, Alcácer do Sal

Em 1980, por ocasião do concorrido IV Congresso Nacional de Arqueologia, realizado em Faro e que prenunciou um intenso movimento de reestruturação da arqueologia portuguesa, por despacho do Secretário de Estado da Cultura, António Paixão, em representação da Administração, integrou com Carlos Tavares da Silva, Manuela Delgado e Rui Parreira, uma Comissão encarregada de rever um muito criticado “Plano de Trabalhos de Campo para 1980-84”. Tal comissão, porém, não se limitaria a corrigir o referido plano, acabando por produzir um importante documento que serviria de base à estruturação do Departamento de Arqueologia e dos Serviços Regionais de Arqueologia, no âmbito do IPPC criado nesse mesmo ano. Muito naturalmente e sem quaisquer complexos, António Cavaleiro Paixão viria a integrar, conjuntamente com outros colegas mais jovens entretanto requisitados ao ensino secundário, o novo Departamento de Arqueologia dirigido por Francisco Alves e provisoriamente instalado no Museu Nacional de Arqueologia. Para Paixão, era o regresso a uma casa onde década e meia antes entrara pela mão de Fernando de Almeida. E podemos dizer que, dada a especificidade dos principais assuntos de que se ocupou até final da carreira, nomeadamente a Arqueologia de Alcácer do Sal e de Tróia, duas estações especialmente ligadas ao Museu Nacional, esta passaria a ser a sua casa de trabalho por excelência, pesem embora algumas interrupções ou desvios pontuais. Destaca-se neste aspecto o seu envolvimento, como coordenador para a arqueologia, no projecto de recuperação e valorização das monumentais Ruínas da Igreja de São Paulo, em Macau, promovido pelo Instituto Cultural de Macau, sob a coordenação geral do Arquitecto João Carrilho da Graça, e que o levará durante alguns períodos entre 1990 e 1991 ao distante Oriente. Paralelamente à sua actividade principal como arqueólogo e técnico superior do IPPC, posteriormente IPPAR, António Paixão, por razões de carácter, nunca se desvincularia da sua inicial vocação pedagógica, quer no âmbito específico dos trabalhos de campo que dirigia, apoiando os colaboradores mais jovens, quer retomando a carreira académica que iniciara em Moçambique. No final dos anos setenta, já funcionário da SEC, chegou a dar aulas de formação de professores no Instituto Universitário dos Açores. Em 1982, leccionou uma cadeira de Pré-história no Instituto Politécnico de Santarém e a partir de 1989, assumiu a regência de diversas cadeiras de Arqueologia na Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), actividade que manteve até à sua aposentação em 2004.


A.C. Paixão, à direita nas escavações do Convento de Nª Sª de Aracoeli, por ocasião das obras de construção da Pousada de Alcácer do Sal nos anos 90 do século passado.


Ainda que nunca perdendo o contacto com os projectos relacionados com a investigação e valorização das Ruínas de Tróia, de que foi durante anos o responsável por parte do IPPC/IPPAR, seria a Alcácer do Sal, onde afinal a sua carreira de arqueólogo começara em 1967, que dedicaria maior energia e atenção nos seus últimos anos como técnico do património e investigador. Prioritariamente focalizado na problemática das necrópoles da Idade do Ferro e da época Romana, quase sempre no quadro de situações de emergência e salvamento, Cavaleiro Paixão teria finalmente oportunidade no início dos anos 90 de coordenar uma grande intervenção no coração da “acrópole” de Alcácer, em parceria com o malogrado arqueólogo João Carlos Faria, um jovem local que se iniciara nas lides arqueológicas pela sua própria mão e com o qual, já como arqueólogo municipal, mantinha estreita colaboração e amizade. No âmbito do projecto de adaptação do Convento de Nª Sª de Aracaeli a Pousada, construído sobre o que restava da alcáçova islâmico-cristã do Castelo, aqueles arqueólogos levaram a cabo uma vasta e complexa operação de arqueologia preventiva entre 1993 e 1998, num espaço privilegiado da antiga cidade, e de que resultou todo um manancial de informação sobre a continuada ocupação do local, desde a Proto-história, passando pela época romana e alcançando a presença islâmica e conquista cristã. Num desfecho tão ou mais importante do que a escavação arqueológica e divulgação de resultados científicos, não tão completa como se desejaria devido ao precoce desaparecimento de João Faria e à doença de Cavaleiro Paixão, o projecto culminaria na protecção, salvaguarda e musealização de parte das estruturas e do espólio então descobertos, incluindo as ruínas de um importante santuário da Idade do Ferro ainda activo em época romana, integradas em impressionante cripta arqueológica construída sob a própria Pousada e aberta ao público desde 2008. Ainda que nem António Cavaleiro Paixão, já aposentado desde 2004 por razões de saúde, nem João Carlos Faria, falecido em 2006, tenham podido estar presentes à sua inauguração, a Cripta Arqueológica de Alcácer, é concepção de ambos, mestre e discípulo, ficando para o futuro como um dos maiores legados materiais da arqueologia pública portuguesa da transição do século.

Já nos últimos anos de actividade profissional (2004?) A.C.Paixão, dirige uma visita às ruínas conservadas na cripta da Pousada de Alcácer do Sal, ainda antes da respectiva musealização e abertura ao público, facto que só ocorreria em 2008.


   

quinta-feira, 22 de junho de 2017

"Quando Portugal Ardeu"


O título parece remeter para a triste e dramática actualidade. Mas trata-se apenas de uma infeliz coincidência. "Quando Portugal Ardeu", é o título de um recente e interessante livro do jornalista Miguel Carvalho, sobre o lado negro da Revolução dos Cravos. Quando do seu lançamento em Março passado o tema já havia despertado a minha curiosidade mas a oportunidade para o comprar só na passada sexta-feira se proporcionou, precisamente na véspera dos dramáticos eventos que abalaram o Pedrógão Grande.

Praticamente que, desde o 25 de Abril, evento que me apanhou na véspera de fazer 22 anos, tenho procurado acompanhar, dentro do humanamente possível e normal, a produção histórico-documental sobre este evento que ainda hoje marca de forma indelével a nossa história contemporânea. Aliás tal já começara um pouco antes, quando adquiri e devorei (na minha ingenuidade poítica da época), o "Portugal e o Futuro" do General Spínola... ver aqui Já depois do 25 de Abril, dado o especial interesse que (à revelia da minha posterior carreira profissional) sempre mantive pela história contemporânea, tornei-me leitor assíduo de toda a bibliografia que ia surgindo sobre a Revolução, essencialmente na base de testemunhos pessoais, transmitindo a visão de alguns dos seus principais protagonistas, a solo, ou em colaboração com jornalistas. Nesse interesse não ignorava até os testemunhos dos "derrotados", nomeadamente o "Depoimento" de Marcelo Caetano de que ainda existirá um exemplar lá por casa.

Porquê uma referencia especial a mais este testemunho, já quase há distância de meio século, num blog essencialmente memorialista/patrimonialista? Grande parte da curiosidade pelos factos nele narrados advém antes de mais da circunstância de eu ser contemporâneo dos mesmos. Há pois esse lado de voyeurismo histórico que nos atrai a revisitar um passado que também consideramos como algo de pessoal. Depois há também esse exercício de nos olharmos ao espelho e que resulta no confronto, tantas vezes contraditório, entre as nossas memórias pessoais e as memórias dos outros, ou mesmo, as memórias reveladas pelos documentos...E nesse aspecto, não posso deixar de referir que, pese embora o dramatismo da narrativa e a gravidade de tantos dos factos aqui testemunhados (afinal há mesmo um lado muito negro ainda pouco ou nada aflorado pela História "oficial"), como testemunha contemporânea, interessada e envolvida, o lado festivo da "revolução dos cravos" e da "conquista da liberdade", ainda se sobrepõe de forma inequívoca nas minhas memórias pessoais. Aliás, muitos dos eventos então vividos, com excepção para as vítimas que também as houve, acabariam por subsistir muitas vezes no domínio da narrativa anedótica. E, entrarão nesse domínio, até algumas historietas arqueológicas, como a daquela tarde de Sábado de 28 de Setembro de 1974, quando um grupo de jovens estudantes do GEPP (associação informal de estudantes da Faculdade de Letras interessados pelo Paleolítico) regressava de uma expedição aos terraços quaternários da costa alentejana, entre Sines e o Pessegueiro. Com a mala do Toyota emprestado pelo meu pai, carregada de calhaus rolados de potencial interesse pré-histórico, fomos barrados na Portagem de Almada, pelas barricadas de soldados e operários da Margem Sul, que impediam a entrada dos contra-revolucionários convocados por Spinola e por Galvão de Melo para a a manifestação da "Maioria Silenciosa". Numa altura já muito agitada e em que constava que tinha sido interceptada uma carrinha funerária com um caixão carregado de armas... lá tivémos que explicar aos atónitos barragistas que as pedras, ainda que possíveis "armas pré-históricas" de arremesso, eram afinal inofensivo material de estudo...arqueológico.


Estou longe de ter terminado a leitura das mais de 500 páginas da obra de Miguel Carvalho, escrita num tom jornalístico que me agrada quando bem estruturado e suficientemente documentado, como parece ser o caso. Mas emocionei-me praticamente desde as primeiras páginas, com a história de João Guilherme Arruda, uma das cinco vítimas assassinadas pela PIDE, num último acto de desespero, na tarde do próprio dia 25 de Abril, na Rua António Maria Cardoso. Como todos os meus contemporâneos que viveram essa madrugada irrepetível, não ignorava essa tragédia que veio macular esse dia mas que com o passar dos anos, pertencia já à ganga da própria História. Mas a narrativa de Miguel Carvalho, deu um conteúdo tão humano e pessoal aos factos, que eu não pude deixar de me sentir identificado com aquele colega (com o qual me cruzei certamente nos corredores da Faculdade de Letras que ambos frequentávamos nesse ano de 74). Também o João que como eu vinha de uma família pobre da província, encontrara no Seminário, a possibilidade de aceder à formação escolar que doutro modo jamais conseguiria. Provavelmente ainda no Seminário (ele em Braga eu em Almada, em período de renovação conciliar), ambos começáramos a procurar entender as causas de tantas injustiças e desigualdades. Ambos, certamente, começávamos então a sonhar com um mundo diferente, em particular a partir do momento em que entrámos na mesma Faculdade, no meu caso, dois anos mais velho, em 71 para História, o João em 73 para Filosofia... Ambos sofremos nessa manhã de 25 de Abril de 1974, quando as dúvidas ainda eram muitas sobre a efectiva orientação do golpe militar em curso. Ambos rejubilámos ao ouvir na rádio as canções do Zeca Afonso ou do Adriano Correia de Oliveira que todos conheciamos de cor mas que nunca passavam na rádio. Mas para o João Guilherme Rego Arruda, ceifado cerce por uma rajada assassina, o dia mais longo das nossas vidas já não chegaria ao fim. Porquê o João e não o António? A vida e a História, afinal também se fazem destes detalhes.

terça-feira, 13 de junho de 2017

As Necrópoles de Ervidel

Extracto do artigo de J.M.Arnaud (Vipasca, 1, 1992) registando a descoberta da Necrópole Ervidel 3. O nº 10 localiza o grande povoado contemporâneo, Outeiro do Circo, actualmente objecto de investigação por Miguel Serra e Eduardo Porfírio.


Mais uma vez graças à amabilidade do Gonçalo Pereira, chega-me um novo recorte arqueológico do Diário de Notícias. Neste caso, uma pequena notícia de 9 de Janeiro de 1967, dando conta da descoberta ocasional de mais uma das várias necrópoles reconhecidas nos férteis terrenos agrícolas na envolvente de Ervidel (Aljustrel).



Tratava-se da Necrópole da Medarra, do final da Idade do Bronze, cujos materiais de encontram actualmente no Museu Regional de Beja e que seriam estudados mais tarde pelo eminente arqueólogo alemão H. Schubart no âmbito das suas investigações, ainda hoje essenciais, sobre a Idade do Bronze no Sudoeste Ibérico. Socorrendo-me de uma síntese recentemente publicada por Eduardo Porfírio, Miguel Serra e Carlo Bottaini (2012 ver aqui  ) recordo que a necrópole da Medarra escavada pelo arqueólogo bejense Fernando Nunes Ribeiro (antigo Governador Civil de Beja e o descobridor das Ruínas de Pisões), apresentava pelo menos seis cistas, ou seja pequenas "caixas" sepulcrais formadas por lages de xisto, no interior da qual era normalmente depositado o cadáver, em posição fetal, acompanhado por objectos pessoais, em cerâmica ou metal.

Este tipo de necrópole é frequente em todo o Sudoeste ibérico, sendo normalmente detectadas no âmbito de trabalhos agrícolas. De facto alguns anos depois da descoberta divulgada pelo Diário de Notícias, em meados de 1976, já no decorrer da intensificação agrícola que se seguiu às ocupações da Reforma Agrária, foi descoberta uma outra Necrópole, um pouco mais a Norte de Medarra, que para além das habituais cistas e materiais afins, apresentava uma magnífica estela decorada (a Estela da Herdade do Pomar, Ervidel) actualmente depositada no Museu de Setúbal, por razões que apenas as idiossincrasias arqueológicas poderão explicar, estela que esteve na origem de um exemplar estudo monográfico do meu colega de faculdade, o malogrado Jorge Pinho Monteiro de colaboração com Mário Varela Gomes. Para além dos normais atributos guerreiros do falecido evocado na lápide (um escudo, uma lança e uma espada) esta lápide mostra alguns artefactos estranhos à cultura ibérica da época  (mil anos antes de Cristo) mas que revelam já forte influencia mediterrânica (uma fíbula ou alfinete de mola, uma pinça, um espelho e um pente) "acessórios" que são aqui certamente usados como símbolos do especial status social da figura que ali fora sepultado. Durante muito tempo esta cultura do final da Idade do Bronze que corresponde à matriz sócio-cultural que irá absorver finalmente a influencia civilizacional do Mediterrâneo Oriental, era especialmente conhecida pelas suas necrópoles. Só recentemente, graças a alguns estudos ainda limitados desenvolvidos nos grandes "povoados centrais" que estruturavam o território (como o Castro dos Ratinhos, Moura ou o Outeiro do Circo, Beringel, ligeiramente a Norte de Ervidel), se começou a desvendar alguma luz sobre o modo de vida destas comunidades, agro-pastoris, já muito hierarquizadas e dominadas regionalmente por "guerreiros", como o que terá sido sepultado no Pomar.

A estela da Herdade do Pomar, segundo J.P.Monteiro e M.V.Gomes


Eu próprio, julgo que em finais de 1980 ou início de 1981, na altura em que iniciava a minha carreira profissional no então IPPC, me vi envolvido no registo de mais uma destas descobertas ocasionais. Por ordem do Francisco Alves, então director do MNA, dirigi-me com a minha colega Clara Vaz Pinto (já então algo familiarizada com a arqueologia bejense) a Ervidel, respondendo a uma solicitação das autoridades locais. É que, no decorrer de abertura de uma vala para irrigação, a Oeste de Ervidel, tinham sido encontradas umas ossadas humanas que haviam dado lugar à intervenção da GNR. Esta tomou conta da ocorrência e resolveu chamar o Delegado de Saúde. No entanto este rapidamente se dera conta que já pouca burocracia haveria a fazer, uma vez que o óbito teria ocorrido há qualquer coisa como 3 000 anos...Quando eu e a Clara chegámos a Ervidel, os ossos já estavam na GNR mas nas margens da vala então aberta ainda pudemos localizar os restos de duas cistas, já muito destruídas e algumas cerâmicas a ela associadas. Tudo recolheu ao Museu Nacional de Arqueologia acompanhado de um relatório que constará dos arquivos do Museu.

Consultando a base de dados do ENDOVÉLICO, bem como um trabalho de síntese de José Morais Arnaud publicado em 1992 na revista VIPASCA, em que se dá conta de uma outra descoberta desta natureza pela mesma época (1982) e que Arnaud então denomina Ervidel 3 -suponho que fazendo contas com Medarra 1967, (Ervidel 1) e Herdade do Pomar (Ervidel 2)- tenho dúvidas se a observação registada por mim e pela Clara Vaz Pinto (actual directora do Museu do Traje) estará devidamente assinalada na Base de Dados da Arqueologia portuguesa. A não ser que esteja relacionada com Cariolinha, ali identificada também como "necrópole" e que de acordo com a localização, não andará longe do local da descoberta de 1981.


As necrópoles da Idade do Bronze de Ervidel, segundo o ENDOVÉLICO.  Comparando com o mapa publicado por JMArnaud na Revista VIPASCA, Ervidel 3 está incorrectamente localizada.

sexta-feira, 2 de junho de 2017


Os Almendres na National Geographic

 ser ou não ser Monumento Nacional





Por mera coincidência, a National Geographic em síntese correctíssima e muito bem informada, lembrou no seu número de Junho, a incrível situação burocrático-legal que mantem o CROMELEQUE DOS ALMENDRES e outros monumentos megalíticos alentejanos numa espécie de "limbo administrativo". São monumentos nacionais mas afinal é como se não fossem...pois ninguém tem nada a ver com a sua lamentável situação. E alguns, como é o caso da ANTA GRANDE DO ZAMBUJEIRO, um dos maiores monumentos do seu tipo em todo o mundo, encontram-se numa situação de risco eminente de ruína total. Outros, como os Almendres, recebem centenas de visitantes todos os dias, sem qualquer limitação, controlo ou vigilância, sujeitos unica e simplesmente à educação e sensibilidade de cada um, para espanto e muitas vezes escandalo dos turistas mais esclarecidos.

Pois, no site do Parlamento é já possível consultar a resposta do Ministro da Cultura, às perguntas que o Bloco de Esquerda, na sequencia de visita recente aos Almendres sobre este problema, apresentou ao Governo, dando andamento a um conjunto de preocupações denunciadas pela Junta de Freguesia local. ver aqui

Vale a pena ler os dois textos e tentar perceber o que é que afinal o Ministério da Cultura pretende fazer para salvaguardar este e outros monumentos nacionais. 

Ou afinal não são monumentos nacionais?



quinta-feira, 25 de maio de 2017


Eduardo da Cunha Serrão e as "cerâmicas de ornatos brunidos"

Eduardo da Cunha Serrão, no Tejo  (Foto de António Martinho Baptista, finais dos anos 70)

Hoje mesmo, na Associação dos Arqueólogos Portugueses, no âmbito da apresentação pública dos três trabalhos de Arqueologia galardoados com o Prémio de Arqueologia "Eduardo da Cunha Serrão" (1ª edição), o meu amigo Vitor Oliveira Jorge proferirá uma intervenção sobre a importância e o papel daquele antigo presidente da AAP na Arqueologia portuguesa nas últimas décadas do século XX. Porque um dos trabalhos premiados e agora editados versa um tema muito caro a Cunha Serrão ("cerâmicas de decoração brunida") pareceu-me relevante aqui transcrever uma parte da introdução histórica da monografia do Castro dos Ratinhos  (Luis Berrocal Rangel e António Carlos Silva, MNA, 2010), em que se revela mais uma vez esse interesse de Cunha Serrão, pessoa com quem tive ainda o prazer de conviver, pela mão do Francisdo Sande Lemos e do Jorge Pinho Monteiro, e cuja casa de Campo de Ourique recordo, cada vez que passo junto ao Canas.



Em 1960, já depois de afastado há alguns anos da arqueologia de campo, o Castro dos Ratinhos cruza-se de novo com Fragoso de Lima. Isso acontece de novo por interposta pessoa, neste caso a estudante sua conterrânea, Wanda Rodrigues e Rodrigues, então também aluna de Manuel Heleno. Com efeito, no âmbito da preparação da respectiva tese de licenciatura, aquela estudante viria a realizar no Verão de 60 alguns trabalhos no Castro dos Ratinhos em circunstâncias que só muito recentemente nos foi possível registar, graças ao seu próprio testemunho[1]. Curiosamente, fora através de Afonso do Paço, à época Presidente da Associação dos Arqueólogos Portugueses, que Wanda Rodrigues, numa visita de estudo à sede daquela Associação, tomara conhecimento da existência do Castro dos Ratinhos. Afonso do Paço, ao saber que a jovem estudante era natural de Moura e procurava tema para a “tese”, chamara-lhe a atenção para o potencial interesse do Castro dos Ratinhos. Como se sabe, Paço colaborava com Pires Gonçalves na zona de Reguengos de Monsaraz e Mourão e deveria ter visitado o Castro dos Pardieiros e, eventualmente, os próprios Ratinhos. Em todo o caso, não deixa de ser surpreendente que, dadas as sua péssimas relações com Manuel Heleno, tenha feito uma tal sugestão a uma inexperiente aluna deste. A não ser que Paço, com essa atitude, estivesse a enviar ao seu adversário uma qualquer mensagem indirecta, dando-lhe a perceber que conhecia bem as “riquezas” que aquele parecia afinal ignorar no seu próprio “território”. Wanda Rodrigues, sem a mínima suspeita do eventual “segundo sentido” da proposta, acaba por acolher a sugestão e após uma primeira visita ao Castro no Inverno de 1959-60, acompanhada por Manuel Farinha dos Santos, assistente e colaborador muito próximo de Heleno, decide aí proceder a escavações, às suas próprias custas. De referir que, fazendo fé no testemunho recente de Wanda Rodrigues, quer na sua percepção, quer na do próprio Farinha dos Santos, o “Castro” se limitaria à plataforma mais elevada (a que chamamos hoje de “acrópole”) o que, não sendo estranho para uma aluna inexperiente já é mais difícil de aceitar da parte do arqueólogo. De qualquer modo, as escavações, tuteladas por Farinha dos Santos que entretanto, na expressão da própria Wanda Rodrigues, “registara” o sítio arqueológico[2], viriam a ter lugar no Verão de 1960 e constaram, segundo a sua própria descrição, de um conjunto de pequenas “valas” abertas por trabalhadores rurais, na plataforma mais elevada, onde ainda hoje são observáveis pequenas depressões de 1x1m, próximas do respectivo talude, que poderão corresponder a estas mesmas sondagens.[3] Como metodologia e procurando seguir as instruções de Farinha dos Santos que não participaria directamente nos trabalhos, Wanda Rodrigues limitar-se-ia a acompanhar o trabalho dos cavadores, recolhendo as cerâmicas e anotando a profundidade a que as mesmas eram descobertas. A partir dos materiais recolhidos, que incluíram também duas “pontas de lança” em bronze, Wanda Rodrigues viria a apresentar e a defender tese de licenciatura na Faculdade de Letras[4]. Alguns desses materiais seriam entretanto depositados no Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia, onde ainda hoje se encontram, instituição onde chegou a ser convidada para colaborar mas cujo “ambiente”, segundo nos confessou, lhe não terá agradado[5]. Em todo o caso, facilitaria os dados obtidos a José Fragoso de Lima, em particular os que diziam respeito às “cerâmicas de ornatos brunidos” cuja importância contextual destacara já na sua tese como veio a reconhecer aquele arqueólogo. (“Estamos de acuerdo en principio con las sugerencias y paralelismos observados por la señorita Wanda Rodrigues, y ciertos aspectos de estas cerámicas parecen recordar, dentro de determinados limites, cerámicas del Castro de Medeiros, Monterrey (Orense) y con estaciones portuguesas tales como la Gruta de Vimieiro; el Castro de Mangancha (cerca de Aljustrel): Mesa dos Castelinhos (Messejana). En la Cueva llamada Lapa do Fumo (Sesimbra) existen ejemplares que hasta cierto punto pueden relacionarse con la cerámica de Ratinhos” Lima, 1960,). O mérito de Fragoso de Lima residiria assim e em particular, na rápida divulgação da descoberta, quer por contacto pessoal junto de arqueólogos espanhóis, como Maluquer de Motes e Juan Carriazo, das Universidades de Barcelona e Sevilha, quer através da publicação, ainda esse mesmo ano de uma pequena mas oportuna Nota na conceituada revista Zephyrus (Lima,1960) de Salamanca, proporcionando deste modo o reconhecimento internacional do Castro dos Ratinhos.


Wanda Rodrigues, revisitando os Ratinhos em 2005

Com o auto-afastamento de Wanda Rodrigues e apesar da importância científica dos achados, o Castro dos Ratinhos cai de novo no esquecimento. Manuel Heleno que “controlava” a Arqueologia na região de Moura, dispersava a sua atenção por muitos outros projectos. Farinha dos Santos inclinava-se mais para a Pré-história Antiga, facto que se confirmaria com o com o seu envolvimento no estudo da Gruta do Escoural, descoberta pouco tempo depois (1963). Assim, só em 1970, por coincidência no ano da morte de Manuel Heleno, surgiria nova intenção de escavações no Castro dos Ratinhos, agora protagonizada por Eduardo da Cunha Serrão, um outro membro proeminente da Associação dos Arqueólogos Portugueses. Com efeito, nas escavações da Lapa do Fumo de 1956, Cunha Serrão identificara pela primeira vez em território português, cerâmicas com “ornatos brunidos” tendo dado notícia da descoberta logo em 1958 na revista Zephyrus (Serrão, 1958). Atendendo às suas relações com Afonso do Paço e Pires Gonçalves na Associação dos Arqueólogos Portugueses,  Eduardo Serrão deverá ter tido notícia indirecta dos trabalhos de Wanda Rodrigues mas foi, certamente, através do artigo de Fragoso de Lima de 1960, que se terá apercebido da importância dos Ratinhos para o esclarecimento da origem e da cronologia daquelas cerâmicas. Por outro lado, conforme testemunho de Teresa Gamito, Manuel Heleno sabendo do interesse de Cunha Serrão por este tipo de cerâmicas, chegara a mostrar-lhe as cerâmicas dos Ratinhos depositadas no MNAE, mas sem identificar a sua origem, numa atitude que podemos interpretar de clara “demarcação territorial”[6]. Dados os antecedentes e circunstâncias, vale a pena transcrever integralmente, o requerimento enviado por Cunha Serrão ao Ministro da Educação Nacional, em 5 de Janeiro de 1970, solicitando autorização para escavar no Castro dos Ratinhos e referir, porque algum significado deverá ter, o facto do requerimento ter ficado sem resposta durante seis meses. Cunha Serrão que recebera quase de imediato um cartão manuscrito pelo próprio Ministro, José Hermano Saraiva, em que este agradecia as publicações anexas ao “requerimento” e informava ter remetido o assunto “à atenção do serviço competente”, vê-se na contingência de, na ausência de resposta, a enviar segunda via do pedido em 17 de Julho de 1970, acompanhada da cópia do cartão do próprio Ministro que ainda hoje consta do processo. Finalmente em 22 de Agosto de 1970, em parecer da 1ª sub-secção da 2ª Secção da Junta Nacional da Educação, assinado por Fernando de Almeida, sucessor de Manuel Heleno no Museu de Arqueologia e na Cadeira da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Cunha Serrão seria autorizado a escavar no Castro dos Ratinhos.

(Requerimento de Eduardo da Cunha Serrão, de 5 de Janeiro de 1970)
“Senhor Ministro da Educação Nacional
Excelência
Eduardo José de Miranda da Cunha Serrão. Licenciado em Ciências Económicas e Financeiras, tem realizado entre outros, vários estudos relativos a uma espécie cerâmica decorada com “ornatos brunidos” que pela primeira vez se evidenciou em Portugal em 1956 durante a exploração da Lapa do Fumo (Sesimbra) – estação que detectou e tem explorado- e, pouco depois, no Castro dos Ratinhos (Moura).
Uma possível variante desta cerâmica era conhecida em Espanha e havida sido recolhida em Carmona e Mesas de Asta. Quase na mesma altura em que foram exumados os exemplares da Lapa do Fumo, apareceu em grande quantidade na estação de El Carambolo (Sevilha), acompanhando o célebre tesouro considerado tartéssico, constituído por placas, braceletes e um colar, de oiro, peças de grande valor arqueológico e intrínseco, e de grande beleza.
A datação pelo método estratigráfico desta cerâmica andalaluza tem ocupado alguns arqueólogos espanhóis (Prof. J. de Mata Carriazo, Maluquer de Motes, J. Pedro Garrido, J.M. Blásquez, etc.), para o que realizaram várias e metódicas escavações, sendo possível colocá-la entre os séculos IX e IV a. C.
À variante portuguesa tem-se dedicado, com particular atenção, o signatário que, pelos dados estratigráficos da Lapa do Fumo, a considera pós-campaniforme, contemporânea dos recipientes da fase final do Bronze e imediatamente anterior às primeiras cerâmicas fabricadas com torno rápido.
Em Setembro p.p., o signatário deslocou-se a Sevilha, Carmona e Jerez de la Frontera, para avaliar o grau de paralelismo entre as duas variantes (se já podemos  considerá-las como variantes, pois podem não passar de sub-tipos de um tipo ainda mal identificado), tendo colhido elementos que lhe permitiram apresentar uma comunicação sobre o assunto nas Jornadas Arqueológicas promovidas em Novembro p.p., pela Associação dos Arqueólogos Portugueses.
Mas, o problema que mais interessa agora é, à semelhança do que se tem feito em Espanha, obter dados sobre cronologia noutras estações do nosso território para os comparar com os da Lapa do Fumo e integrar no admissível quadro cultural respectivo, cuja área geográfica parece ser Portugal ao Sul do Tejo e a Andaluzia.
Ora o signatário está convencido de que o Castro dos Ratinhos (Moura), poderá ser a estação portuguesa que, depois da Lapa do Fumo, melhores esclarecimentos prestará a tal respeito, não só fundamentado nas sumárias descrições feitas pelo Dr. Fragoso de Lima (Zephyrus, 1960), mas também nas informações que amavelmente lhe prestou o Senhor Dr. Manuel Farinha dos Santos. Este último informou-o, ainda, de que em tempos, a exploração do Castro dos Ratinhos lhe foi entregue e que concedeu facilidades à licenciada Exmª Senhora D. Vanda Rodrigues para, sobre as respectivas cerâmicas com “ornatos brunidos”, elaborar a sua dissertação de licenciatura. Porém, tal dissertação não chegou a ser apresentada e a Senhora Vanda Rodrigues (que não se encontra presentemente na Metrópole) limitou-se a fornecer ao Sr. Dr. Fragoso de Lima os elementos que lhe permitiram o referido estudo sumário que publicou na Zephyrus.
Conhecedor destes factos, o signatário ofereceu ao Sr. Dr. M. Farinha dos Santos a sua colaboração para trabalhar no Castro dos Ratinhos, tendo obtido como resposta que o poderia fazer individualmente, dados os muitos trabalhos arqueológicos em que o Dr. M. Farinha dos Santos se encontra comprometido presentemente.
Uma vez que os problemas com das cerâmicas com “ornatos brunidos” do nosso território assumem apreciável importância e se os quisermos solucionar ao nível peninsular do qual não se pode desintegrar, conviria não protelar o estudo das estações conhecidas que, para tal efeito, melhor se prestam.
Portanto, o signatário solicita de V.Exª. se digne autorizá-lo a efectuar sondagens e escavações no Castro dos Ratinhos com o objectivo de confrontar os resultados que obtiver com os da Lapa do Fumo e com os elementos que, na Andaluzia, lhe foram prestados pelo Prof. Mata Carriazo Manuel Esteves Guerrero e Dr. H. Schubart.
Como plano de trabalhos, de momento, apenas pode declarar que pretende:
     1º- Examinar, com a devida atenção, o Castro dos Ratinhos (que ainda não conhece), para poder avaliar a sua estrutura geral e quais os locais onde poderá realizar prospecções e explorações;
     2º- Concretizado o que acaba de expor, proceder a uma exploração na zona que lhe parecer mais prometedora de bons resultados;
     3º - Na exploração que efectuar, colocará em primeiro plano a obtenção de dados estratigráficos que lhe permitam obter uma cronologia relativa para a cerâmica “com ornatos brunidos” do Castro dos Ratinhos, estação esta que, pela sua posição geográfica (próximo da fronteira), deve fornecer elementos que estabelecem a relação entre as variantes portuguesa e andaluza.
     4º - De todos os resultados obtidos, dará conhecimento a V.Exaª em relatórios circunstanciados a elaborar oportunamente.
     5º- Todo o material que vier a ser recolhido será entregue, devidamente inventariado, ao Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia, ou à instituição que Vossa Excelência, no seu alto critério, se dignar determinar.
     Quanto ao seu curriculum, o signatário permite-se remeter V.Exª para os elementos que, a tal respeito, acompanharam outros pedidos de exploração que apresentou (da Lapa do Fumo, por exemplo) e a acrescentar que, presentemente, desempenha as seguintes funções todas relativas à investigação arqueológica: Director do Museu Arqueológico Municipal de Sesimbra; Delegado da Junta de Educação Nacional da Educação no Concelho de Sesimbra; Presidente da Secção de Pré-história da Associação dos Arqueólogos Portugueses. Mas, se Vossa Excelência, assim o desejar apresentará uma relação de todos os estudos que, até hoje, publicou individualmente ou de colaboração com outros arqueólogos. Apenas junta, agora, os dois que mais interessam ao caso.
Submeto o assunto à apreciação de Vossa Excelência, aguardo o favor de uma resposta e apresento cumprimentos de elevada consideração.
Lisboa, 5 de Janeiro de 1970
Eduardo da Cunha Serrão”

Cunha Serrão, no entanto, nunca chegaria a tirar partido da autorização para escavar no Castro dos Ratinhos. Antes de mais por falta dos meios e condições adequadas a uma intervenção num sítio então, praticamente, sem acessos[7]. Por outro lado, porque um ano depois, seria arrastado por um grupo de jovens aspirantes a arqueólogos que apadrinhava, para a aventura de estudo e salvamento da “Arte Rupestre do Vale do Tejo”, cujos primeiros núcleos foram descobertos em Fratel, Vila Velha de Ródão, em Outubro de 1971[8]. O Castro dos Ratinhos, apesar de algumas citações ocasionais, especialmente de autores estrangeiros (Schubart, 1971,1975; Frankenstein, 1997; Coffyn, 1985) e de uma ou outra visita de arqueólogos ou mesmo de “pesquisadores de tesouros”[9], entraria em novo período de olvido. Em todo o caso o seu prévio reconhecimento e os ecos das diversas referências entretanto feitas, permitiu que passasse quase incólume às grandes transformações verificadas na sua envolvente quando em 1976, se iniciaram os trabalhos preparatórios para a construção da Barragem do Alqueva, com o desvio do curso do Guadiana e a construção da respectiva ensecadeira.
Entretanto em 1981, durante os trabalhos de inventariação e reorganização das colecções do Museu Nacional de Arqueologia, promovidos pela direcção de Francisco Alves, um dos colaboradores nessa tarefa, João Ludgero, reencontrou as cerâmicas do Castro dos Ratinhos que Manuel Heleno tão ciosamente guardava na sua secretária, fazendo chegar essa informação a Teresa Gamito e José Morais Arnaud. No âmbito de preparação da respectiva tese de Doutoramento, Teresa Gamito interessava-se então pelos castros da Idade do Ferro na envolvente do Guadiana, enquanto José Morais Arnaud, encontrara cerâmicas semelhantes em sondagens realizadas em meados dos anos setenta na Corôa do Frade, um outro grande povoado do Final da Idade do Bronze, situado nos arredores de Évora (Arnaud, 1979). Justificando o especial interesse por este tipo de cerâmicas bem como sobre o sítio da sua origem, Teresa Gamito viria a estudar aquela pequena colecção dos Ratinhos, em artigo que publicaria mais tarde na revista do Museu, O Arqueólogo Português (Gamito, 1990-92). Nesse trabalho, depois de destacar o papel de Cunha Serrão na identificação das cerâmicas de ornatos brunidos e de traçar o estado da questão no que respeita ao Sudoeste Peninsular, Teresa Gamito propõe uma original e pertinente relação entre os padrões geométricos dos respectivos motivos decorativos e a decoração dos “torques” de ouro maciço, peças de ourivesaria características do Bronze Final do Sudoeste Peninsular. Ainda que o objectivo daquele trabalho estivesse especialmente centrado nesta cerâmica, a Teresa Gamito que procedera com José Arnaud a um reconhecimento prévio de contextualização do próprio Castro, se deve também o mérito de nova e decisiva chamada de atenção para este importante sítio, nas vésperas de arranque dos Projectos Arqueológicos do Alqueva. Pelas razões já antes referidas, o Castro dos Ratinhos não mereceria no âmbito dos numerosos trabalhos arqueológicos associados à obra da Barragem, qualquer atenção especial. Mas a partir do momento em que as comportas se fecharam (Fevereiro de 2002) iniciando a formação do gigantesco Lago do Alqueva junto à sua vertente Norte, a forte presença do Castro e da sua “acrópole” ganhou especial relevância na paisagem transfigurada. A decifração dos enigmas que escondia sobre o fim da Pré-História e o início da História, impôs-se-nos então como um desafio a que não podíamos deixar de corresponder.





[1] Em visita ao Castro dos Ratinhos efectuada em 10 de Novembro de 2005 e acompanhada por um dos autores (ACS).
[2] Ainda que nos arquivos da JNE, não apareçam quaisquer registos, o que não é de estranhar, já que sendo a respectiva “subsecção de arqueologia” presidida por Manuel Heleno, este deveria dispensar-se a si e aos seus colaboradores dos procedimentos legais já então previstos na lei. Farinha dos Santos não terá participado directamente nas “escavações” que foram conduzidas no terreno apenas por Wanda Rodrigues.
[3] Na chamada “terceira linha”, duas dezenas de metros a Oeste das Sondagens 2004-05 (localizadas no sector I16 , segundo a nova nomenclatura) há vestígios de outras sondagens antigas que inicialmente atribuímos a Wanda Rodrigues, hipótese entretanto descartada pelo seu testemunho.
[4] Segundo informação de Santiago Macias que fez pesquisas nesse sentido ,ao contrário do que seria habitual não se conserva qualquer exemplar na respecyiva Biblioteca. Wanda Rodrigues, tão pouco, conserva cópia da mesma, tendo perdido entretanto a maior parte da documentação, nomeadamente as fotografias.
[5] Wanda Rodrigues, viria a iniciar a sua carreira como professora no Liceu de Moura entre 1961 e 65, afastando-se definitivamente da Arqueologia, meio onde ainda privou com colegas da sua geração como Maria Amélia Horta Pereira, Irisalva Moita ou Maria Luisa Estácio da Veiga. Em 1965 parte para Moçambique onde continua a carreira de professora liceal de onde só regressa em 1976 para se fixar em Setúbal e ensinar no respectivo Liceu, onde se viria a reformar. Conserva ainda na sua posse alguns registos e alguns materiais das “escavações” de 1960 que projecta vir a oferecer ao Museu Municipal de Moura.
[6] Teresa Gamito refere que Eduardo Cunha Serrão lhe contara que por volta de 1970, no decorrer de uma visita efectuada anos antes ao Museu Nacional de Arqueologia,  “Manuel Heleno lhe havia mostrado uma série de fragmentos de cerâmica de ornatos brunidos provenientes de um “castro” da região de Moura que guardava ciosamente numa gaveta da sua secretária” (Gamito, 1990)
[7] Como a generalidade dos arqueólogos da altura, ECS tinha outra profissão (economista) e a Arqueologia, apesar da sua exemplar competência e seriedade, era realizada nos tempos roubados ao descanso e por isso, preferencialmente focalizada na envolvente dos locais de residência ou de trabalho. Por outro lado, não existia ainda a infra-estrutura rodoviária relacionada com a Barragem do Alqueva.
[8] Um dos autores (ACS) enquanto colaborador naquele projecto, foi testemunha directa do desinteressado e generoso envolvimento de Eduardo Cunha Serrão nos trabalhos de salvamento da Arte Rupestre do Vale do Tejo.
[9] Para além de ténues vestígios na “acrópole” relacionados com os trabalhos de Wanda Rodrigues, os Ratinhos apresentam ainda alguns sinais de sondagens (?) de autoria “incógnita”, para além de diversas marcas de actividade prospectiva ilegal (“detectores de metais”). Não é por isso de excluir que os metais publicados por João Cardoso, uma ponta de lança e dois contos do Bronze Final, adquiridos por terceiros num antiquário e Setúbal e atribuídos a um “achado ocasional” na zona da Barragem do Alqueva, sejam de facto produto de actividade de pesquisa ilegal efectuada no próprio Castro dos Ratinhos (Cardoso et allii, 1992).

Regresso ao Vale do Guadiana 


O "sarcófago" que protege o Castelo da Lousa, bem visível no sonar...

A percepção da profunda transformação paisagística do vale do Guadiana, entre a Juromenha (Alandroal) e o Pedrógão (Vidigueira) numa extensão de quase cem quilómetros, é algo que é difícil ou mesmo impossível traduzir por palavras. É preciso ter vivido aquele território para se ter a noção da mudança radical ali havida em tão poucos anos. Afinal, o enchimento começou há 15 anos (2002) se bem que já antes, com a desmatação sistemática, as mudanças tivessem começado a manifestar-se. É pois sempre com um misto de nostalgia mas também de algum indisfarçável orgulho, por ter participado no processo (esperando ter contribuído para que ele não fosse tão traumático...) que observo aquela nova paisagem "lacustre" sempre que por ali passo, normalmente em serviço.



Mas nesta década e meia, havia algo que ainda não experimentara. Não porque não tivesse tido muitas oportunidades para o fazer mas porque havia uma espécie de réstia de pudor que o parecia impedir. Navegar por cima daquela paisagem que, pelo menos desde os anos 70 (escavações no Xerez de Baixo, com o Luis Raposo), me habituara a percorrer com os pés bem assentes na terra, aprendendo o que era a dura realidade da canícula alentejana, ainda sem suspeitar que um dia por aqui haveria de assentar arraiais.


Pois finalmente, esse "tabu" caíu, ontem mesmo, por força de um desafio do Martin Hock, o arqueólogo alemão, há muito radicado entre nós e professor há algumas décadas na UBI (Universidade da Beira Interior) onde, através da topografia especializada, tem ajudado a incutir em várias gerações de engenheiros ali formados, uma perspectiva mais humana do território. O Martin, (com quem na distante década de oitenta, em conjunto com o Jorge Raposo do Centro de Arqueologia de Almada, aprendi os princípios básicos da topografia, através do manejo em campo da "alidade prancheta", em trabalhos no chamado "Castelo de Alpiarça", ou nas ruínas romanas da Boca do Rio, Lagos) veio-me sugerir a concretização de uma experiencia de aplicação do "sonar", ao controlo da situação de estruturas afundadas pela Barragem do Alqueva. Ambos pensámos de imediato no Castelo da Lousa, por razões compreensíveis. Em 1997, quando na EDIA promovi os primeiros trabalhos de campo, aquele sítio estava no centro das minhas preocupações, e apesar de uma planta efectuada anos antes por Jurgen Wahl, havia necessidade de produzir um novo levantamento, completo e rigorosamente georeferenciado, perante a inevitabilidade da inundação. O trabalho viria a ser adjudicado à UBI e, naturalmente coordenado no terreno pelo Martin Hock, embora tivesse envolvido vários técnicos e alunos daquela Universidade.
O Martin Hock e o José Perdigão, sobre o Castelo da Lousa

O Castelo da Lousa, já protegido pelo sarcófago de sacos de areia (2002). À esquerda um dos marcos de apoio topográfico do projecto de georeferenciação e levantamento topográfico da UBI, coordenado pelo Martin Hock

Foi pois com alguma emoção (e vinte anos mais velhos) que, com a colaboração da EDIA e o apoio directo de uma equipa daquela empresa, coordenada pelo José Perdigão, (o meu antigo e indispensável assistente "todo-o-terreno") que também participou em todo o processo da Lousa e não só), que navegámos durante largos minutos sobre as ruínas do velho "Castelo da Lousa", cujo topo se encontra 15 metros a baixo da actual cota (147). Foi particularmente emotivo o momento em que a forma do gigantesco sarcófago de sacos de areia, surgiu nitidamente no sonar, confirmando o rigor das coordenadas obtidas duas décadas antes pela equipa do Martin. Embora falte tratar os dados obtidos de modo a se construir uma imagem 3D da área sondada, os resultados parecem apontar para a manutenção das condições de estabilidade de toda a estrutura, já observadas há uns cinco anos numa delicada operação de mergulho então promovida pelo Museu da Luz.




O topo da colina, onde se situava o "Povoado Calcolítico do Moinho de Valadares". Esta zona é sazonalmente coberta pelas águas, intensificando a erosão.
As escavações no Povoado do Moinho de Valadares (1999)

















Não nos ficámos pela Lousa, cuja localização, observável do Museu da Luz e da nova aldeia, seria interessante assinalar fisicamente de alguma maneira, no que seria uma evocação de enorme simbolismo. Passámos depois junto a Valadares, onde se localizava um pequeno povoado calcolítico escavado a meia encosta pela equipa do António Valera, e cuja cota muito superficial, o transforma na vítima perfeita da forte erosão marginal que era expectável e cujos resultados observámos. Em frente, após passagem junto à pequena ilha que assinala o demolido "Convento do Alcance", parámos no abrigo da "Rocha da Moura", uma pequena falha no xisto dominante, a que se acedia subindo com dificuldade...
A "Rocha da Moura", estudada arqueologicamente pela equipa da Susana Correia. Hoje, ao nível das águas (cota 147) mas frequentemente submersa.

 A localização da antiga Fábrica da Celulose junto à antiga ponte metálica do Guadiana (ambas demolidas), adivinha-se pela presença da velha estrada que hoje emerge das águas na direção de Mourão. Nas proximidades, julgamos ter detectado no sonar a pequena mamoa artificial que construímos sobre o que restava da Anta (da Fábrica) aí escavada pela equipa do Jorge Oliveira, da Universidade de Évora.

A velha estrada de Mourão, após a ponte metálica do Guadiana. À esquerda situava-se a Fábrica da Celulose e à direita a "Anta da Fábrica", hoje protegida por uma "mamôa".

A nova mamoa da "Anta da Fábrica de Celulose" (2001) que pensamos ter localizado com o "sonar"
Seguindo mais para Norte, frente a Monsaraz, observámos do lado de Mourão a larga baía que corresponde à "Vila Velha", a povoação que a História esquecera mas que a tradição oral ainda guardava e que o Alqueva e a Arqueologia (neste caso graças à equipa coordenada pela Heloísa Santos) redescobriu e escavou até que ao dia em que as águas chegaram. Do outro lado do lago, numa zona que pela topografia é das mais largas do regolfo, apenas a nova ponte nos ajuda a localizar os muitos sítios, de todas as épocas, testemunhos de um intenso povoamento do vale que dava pelo nome de Xerez: os paleolíticos nos Sapateiros (logo na base de um dos grandes pilares da actual ponte...); os vestígios dos últimos caçadores-recolectores mesolíticos da Barca do Xerez, hoje a grande profundidade; os restos dos assentamentos dos primeiros agricultores no Xerez 12, sem esquecer finalmente o local em que o Dr. Pires Gonçalves, descobriu vários menires que mais tarde reinstalara em "quadrado", como Cromeleque do Xerez (hoje deslocalizado para junto da Orada).
O Vale do Xerez, cenário de intensa ocupação humana desde o Paleolítico até ao final do Século XX, é hoje um extenso lago.
A proteção das Antas no Vale do Xerez. Em cima a Anta do Piornal (com a actual ponte em 2ºplano), anta da margem direita, que fazia dupla com a Anta da Fábrica, na margem esquerda, à mesma cota. Em baixo Anta do Xerez, escavadas pelo Prof. Victor Gonçalves.


















A nossa navegação, passaria ainda por uma das grandes escavações do Alqueva, o "Povoado do Porto das Carretas", conduzida pelo Carlos Tavares da Silva e a Joaquina Soares, os arqueólogos que haviam identificado o sítio calcolítico no início dos anos oitenta. As estruturas arqueológicas, de pouca potência e actualmente protegidas por espessa camada de areia, não são relevantes para o sonar. Mas a localização, do povoado, em esporão sobre uma antiga passagem do rio, o Porto das Carretas, protegida na época da Restauração por uma atalaia, não deixou de ser assinalada pela nossa instrumentação.
Navegando sobre o "Porto das Carretas"

As escavações no Porto das Carretas (1989)

A nova ponte de Mourão, em construção (2000?) e na actualidade. A sua construção permitiu a descoberta e escavação do sítio paleolítico dos Sapateiros, sob a direção do Prof. João Pedro Ribeiro

Detalhe do excelente poster (Anyforms) produzido para a National Geographic (Abril 2014) em colaboração com a EDIA, sobre o património cultural e ambiental do Alqueva, assinalando a posição relativa de estruturas como o Castelo da Lousa no actual lago do Alqueva.

A "romagem" estava a terminar e havia que regressar,à Luz. Enquanto navegávamos em velocidade de cruzeiro, invadiu-me uma estranha sensação de ter acabado de percorrer de novo mas numa outra dimensão espaço/temporal, caminhos tantas e tantas vezes trilhados durante os seis anos em que coordenei os trabalhos no Vale (1996-2002). Nesse período, a partir do meu escritório de Mourão, ia quase diariamente ao campo para acompanhar o progresso dos muitos trabalhos em curso, recolhendo directamente junto dos colegas responsáveis, a informação necessária à tomada das decisões mais adequadas em face dos resultados, tantas e tantas vezes completamente inesperados, como é afinal, próprio e por definição, da natureza da arqueologia...